“Taxas naturais” em cólicas

José Paulo Kupfer

27 de agosto de 2010 | 14h38

Uma das inúmeras desvantagens de acumular muita quilometragem na estrada profissional é que as novidades e as surpresas vão escasseando ao mesmo tempo em que sobram repetições e obviedades.

Quando o IBGE divulgou, nesta quinta-feira, uma taxa de desemprego de 6,9% em julho, pensei comigo: não vai demorar para aparecer um daqueles economistas detentores da “ciência econômica” e anunciar a necessidade de aumentar os juros porque a taxa de desemprego está abaixo da “taxa natural”.

Não deu outra. No Estadão impresso desta sexta-feira, dia seguinte ao da divulgação do desemprego, já comparece o professor de finanças do Ibmec-RJ Gilberto Braga, com o resumo típico do pensamento convencional. “No passado recente, o Banco Central andou divulgando que a taxa de desemprego de ‘equilíbrio’ seria perto de 8,5%”, escreveu ele em análise que acompanha a reportagem sobre a taxa observada de desemprego em julho. E concluiu: “Ou seja, taxas no nível atual, rondando 7%, sugerem múltiplas pressões na economia”.

A partir daí, Braga “constata” que já faltam trabalhadores, os salários reais estão subindo, o consumo “dispara” e… pode haver comprometimento do controle da inflação no futuro.  “Por isso”, completa o economista, “uma pequena correção nos juros seria recomendável”.

Beleza. As “taxas naturais” em economia são frutos de utopias acadêmicas de um tipo de pensamento que sonha em conferir à ciência econômica estatuto de ciência natural. Elas podem ser definidas como aquelas neutras em relação à inflação. Mas também poderiam ser descritas como aquelas que, a cada período histórico, são surradas pela realidade observada.

Apesar das enormes dificuldades teóricas em construir modelos para o estabelecimento de taxas naturais, é tal a crença nelas de um certo tipo de economista que, a cada surra da realidade, novas derivações “ajustadas” de “taxas naturais” aparecem. Um bom exemplo é a famosa “Curva de Philips”, que, pioneiramente, em fins dos anos 50, estabeleceu correlações inversas entre desemprego e inflação. Ela viveu (e ainda sobrevive) uma carreira de percalços variados.

A Curva de Philips apanhou feio com a estagflação dos anos 70, quando desemprego e inflação subiram juntos.  E implodiu, nos anos 80, durante o governo Clinton, nos Estados Unidos. Aquele foi um período de crescimento forte, com a taxa de desemprego sistematicamente abaixo da “taxa natural”, no qual, para surpresa dos crentes, a inflação não deu o ar da graça.

Já antes desse momento, quando se concluiu que a coisa não funcionava no curto prazo, as atenções e os esforços teóricos estavam sendo transferidos para uma outra “taxa natural”: a Nairu (sigla em inglês para taxa de desemprego que não acelera a inflação). Estabelecida pelos Prêmio Nobel Edmund Phelps e Milton Friedman, em fins dos anos 60, a Nairu, em cuja base está o conceito de “produto potencial” (teto do nível de crescimento sem inflação), tão em voga na economia brasileira, também vive às turras com a realidade.

Seria absurdo simplesmente jogar no lixo as “taxas naturais”. Apesar da impossibilidade prática de fixar “taxas naturais” definitivas e totalizantes, elas podem ser úteis, desde que não sejam tomadas como dogmas de uma religião, como referência na formulação e execução de políticas econômicas. Mas os riscos de tomá-las como verdade absoluta na formulação de políticas econômicas é sempre muito grande.

No caso brasileiro atual, o “produto potencial” tem sido bravamente açoitado pela realidade. De fato, nos últimos anos, a economia quase sempre cresceu acima do “potencial” estabelecido, com a inflação relativamente bem comportada. Só para lembrar, nesse período, o “produto potencial” geralmente aceito foi ajustado de 2,5% para 3,5%, depois 4,5% e agora, para muitos, está em 5,5%. Em 2010, o ritmo de crescimento da economia real continua descolado dos ditames das “taxas naturais”, fazendo prever o futuro “achado” de novos tetos mais elevados.  

Já há, de fato, quem esteja se convencendo da existência de uma “mudança silenciosa” na estrutura produtiva brasileira. Essa mudança refletiria aumentos na produtividade total de fatores e, em conseqüência, na criação de espaços para um crescimento mais forte sem pressões inflacionárias não administráveis.

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