Comendo pelas beiradas

José Paulo Kupfer

23 de novembro de 2012 | 09h29

O “enigma” da taxa de desemprego baixa não foi resolvido com as informações do IBGE sobre o mercado de trabalho em outubro. Enquanto as projeções para a expansão da economia em 2012 continuam apontando resultado mais do que insatisfatório – talvez nem alcance 1,5% sobre 2011 –, o índice de pessoas desocupadas, em relação à população econômica ativa, manteve-se, impavidamente estacionado num dos seus menores níveis históricos.

Essa situação, aparentemente sem sentido, não vem de hoje. Mas, agora, é até menos fora de esquadro do que parecia ser uns cinco meses atrás. Apesar do crescimento muito baixo com que o ano está fechando, que reflete o ritmo cadente registrado no primeiro semestre, a partir de junho a economia inverteu a tendência e entrou numa trajetória de recuperação. Quando divulgar, no fim da próxima semana, um crescimento acima de 1% (em torno de 4% anualizados), no terceiro trimestre do ano sobre o anterior, o IBGE confirmará essa perspectiva.

O ritmo mais acelerado de crescimento no segundo semestre não será suficiente para salvar o PIB do ano, mas contribuirá para manter no chão a taxa de desemprego, pelo menos por um período razoavelmente longo. Há, porém, razões mais estruturais para explicar o enigma das taxas de desemprego tão baixas em meio a um ciclo de crescimento econômico emperrado.

É preciso considerar que, em si, o nível da taxa de desemprego não diz tudo sobre o mercado de trabalho e muito menos sobre a sua qualidade. Primeiro, os altos custos de admitir e demitir empregados potencializam a estocagem de mão de obra, mesmo em períodos de atividade menos intensa. Depois, os empregos que sustentam o atual baixo índice de ocupação, concentram-se, crescentemente, no setor de serviços e, dentro dele, nos segmentos que exigem menor qualificação. Incluindo o comércio, os serviços responderam, no ano passado, por três em cada quatro novos postos formais de trabalho.

Visto com lentes de aproximação, não parece apropriado falar em pleno emprego diante de um quadro como esse. Ainda mais sem levar em conta que, apesar do ingresso de massas de informais nos primeiros e ainda precários estágios da formalidade, cerca de um terço da mão de obra ainda se encontra inteiramente fora dos marcos legais.

O “enigma” do desemprego baixo, no fim das contas, não é tão enigmático assim. Ele reflete um mercado de trabalho que transita de informal para o quase informal, absorvendo pessoal que antes circulava nas bordas do mercado, em setores que encontram espaço para ampliar a oferta de emprego ao largo do ritmo do nível de atividades da economia como um todo. O emprego, na fase atual do mercado de trabalho brasileiro, está comendo pelas beiradas.

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