A ata não desata

José Paulo Kupfer

31 de janeiro de 2008 | 21h06

O BC corrigiu o erro ortográfico que manchava seu site até momentos atrás (ver nota abaixo). Pelo menos em relação aos erros de ortografia, a chamada Autoridade Monetária mostrou ser flexível e capaz de reconhecer seus erros.

Com relação à política econômica, infelizmente, a teimosia continua. E a ata da reunião do Copom da semana passada, que mateve a taxa básica de juros em 11,25% ao ano, é mais uma confirmação disso.

Entende-se a decisão de manter os juros básicos inalterados. O ambiente externo, turbulento e acentuadamente incerto, recomendava mesmo não fazer marola e esperar por tempos menos enevoados.

Mas os argumentos detalhados na ata preocupam. Tudo é analisado para indicar a quase inevitabilidade de pressões inflacionárias futuras, caso a política monetária seja, como se lê na ata, ainda mais flexibilizada (sic).

A ata do Copom de janeiro prima por algumas estranhezas. Por exemplo, preocupa-se, fortemente, com as projeções da inflação futura – o que é correto -, mas não se esforça tanto assim para projetar os efeitos dos investimentos diretos de hoje na capacidade produtiva de amanhã. Uma coisa sem outra só dá mesmo perspectiva de inflação. Outro exemplo: observa a crise internacional, mas não aprofunda os efeitos da agressiva ação recente do Federal Reserve. Esquecido da diferença que se abre entra a taxa doméstica e a americana, o BC contribui para emperrar a atividade doméstica e alimentar déficits em conta corrente – estes sim perigosíssimos numa quadra de incertezas na economia internacional.

Entre os riscos do sistema de metas de inflação, um dos maiores é a de que o processo alimente profecias auto-realizáveis. A ata de janeiro do Copom exala um forte odor de que está em curso um movimento para que a profecia da alta de inflação se realize.

É lícito pensar que faz parte da coisa o dispensável anúncio de que, se preciso for, o BC saberá como agir (como quem diz: olhem lá, contentem-se com a manutenção dos juros onde estão porque eles podem subir). Ué, há o risco de que o BC não saiba como agir quando precisar agir?

Enfim, a quem isso tudo interessa?