A batalha do Ipea: muito barulho por pouco

José Paulo Kupfer

30 de junho de 2008 | 20h42

A cobertura na imprensa da nova “crise” no Ipea é um prato cheio para estudiosos das manipulações da chamada “grande mídia”. A realidade tem muito pouco a ver com o que tem sido publicado, em reportagens e comentários de colunistas, em torno da decisão de não mais divulgar, trimestralmente, as projeções macroeconômicas realizadas pelo grupo de conjuntura da instituição.

Quem toma contato com a questão pelos jornais fica com a impressão de que a nova direção do Ipea, com o intuito de sonegar informações que não ajudam na montagem do oba-oba propagandístico do governo petista, decidiu descontinuar a produção e a divulgação do boletim de conjuntura. Também é induzido a acreditar que a decisão faz parte de uma ação de caça às bruxas, com a intenção de expurgar pesquisadores com visões diversas daquelas trazidas para a instituição por seus novos dirigentes.

A história, segundo João Sicsú, diretor de estudos macroeconômicos do Ipea, é bem outra. O grupo de acompanhamento de conjuntura não foi extinto, nem mesmo o boletim de conjuntural, que circula há mais de duas décadas, deixará de ser produzido ou divulgado. O que se concretizou agora em junho foi algo já decidido – e anunciado – em dezembro: as projeções macroeconômicas do Ipea passarão a ser publicadas apenas no começo ano, não mais trimestralmente, e passarão por ajustes, com divulgação pública, sempre que as estimativas fugirem do que a realidade estiver apontando.

Por exemplo: a previsão de inflação, em 2008, divulgada pelo Ipea no início do ano, é 5%. Tudo indica que essa projeção já está ultrapassada e, conforme a promessa de Sicsú, assim que, no acumulado do ano, a alta de preços superar a estimativa vigente, o Ipea fará uma revisão e, publicamente, explicará as razões que levaram ao erro e à nova projeção.

Se assumir e explicar erros é uma boa novidade, ainda assim não dá para entender bem por que as projeções trimestrais deixarão de ser divulgadas como eram, a cada três meses. A explicação de que o Ipea não é uma instituição voltada para o curto prazo e que não deve, portanto, ser mais um a competir no mercado de projeções macroeconômicas de conjuntura não justifica a mudança na forma de divulgação das previsões. Mas daí às acusações de censura e manipulação, lançadas à atual direção do Ipea, vai uma enorme distância.

Há também acusações pesadas de que estaria em curso uma operação de caça às bruxas na instituição. No fim do ano passado, quatro economistas entre os mais afinados com um pensamento econômico de mercado, deixaram o Ipea. Sicsú oferece explicações funcionais para o fato, mas a acusação de que o Ipea – cuja atuação não deixou de ser independente nem mesmo na ditadura militar – estaria perdendo seu principal atributo de credibilidade ficaram boiando no ar.

De acordo com as explicações de Sicsú, dois dos economistas dispensados eram pesquisadores aposentados que, pelas normas internas, não poderiam permanecer, nem voluntariamente, prestando serviço nas instalações do órgão, como funcionários. Os outros dois não pertenciam aos quadros do Ipea e estavam emprestados pelo BNDES, vinculados a convênios não renovados. Foram devolvidos aos lugares de origem.

Sicsú quer dar um cunho estritamente técnico aos acontecimentos, mas é claro que as coisas não são bem assim. Com um detalhe: não só agora ou nesse caso específico não são bem assim. As coisas nunca são apenas assim, nunca são apenas técnicas. Aceitar esse fato da vida não significa, porém, considerar que a independência do Ipea, sempre tão louvada, está sendo agora – e só agora – ameaçada.

A independência do Ipea não foi contestada quando, por exemplo, ao longo de uma década, a partir de inícios dos anos 90, suas diretorias deram importância marginal aos estudos de organização industrial e de políticas de desenvolvimento. Nos cerca de 600 textos para discussão produzidos no período, dava para contar nos dedos das mãos o total em que temas de política industrial estavam no foco principal dos estudos. Mesmo engrossada por trabalhos sobre políticas de competitividade, a lista não somou nem 5% do total dos textos publicados no período.

Quem observar que, naquele tempo, os espaços para a discussão, formulação e execução de políticas associadas ao crescimento estavam devidamente soterrados por inevitáveis preocupações macroeconômicas e o controle da inflação, não cometerá injustiças com os dirigentes do Ipea de então. Seria o caso de também não ser injusto agora, quando o Ipea se propõe, com transparência, a dar prioridade às questões do desenvolvimento.

A nova batalha do Ipea é mais um capítulo na eterna guerra entre neoliberais e desenvolvimentistas. Não fosse isso, a mudança na forma de divulgar projeções de conjuntura mereceria menos tinta e papel, assim como menos desperdício de energia intelectual. Mas, o pau está comendo.

Nos últimos dias, não por coincidência, a presença de plantações do economista Fábio Giambiagi, ex-coordenador do grupo de conjuntura do Ipea e um dos que foram devolvido ao BNDES, em colunas da grande mídia aumentou geometricamente. Sabe-se que, mesmo onde não saiu alguma notinha com ele acusando o Ipea, Giambiagi andou procurando jornalistas para passar recados. Além disso, o economista ainda encontrou espaço para publicar um artigo, domingo, na “Folha de S. Paulo”, descendo a lenha na direção do Ipea.

No artigo da “Folha”, para sustentar seus argumentos, Giambiagi faz pelo menos duas afirmações factuais que merecem exame. A primeira é a de que, em 2007, o boletim de conjuntura era “de longe, a publicação mais acessada do site do Ipea”. Como tal audiência não é pública, o articulista deveria provar, com os números de acesso, a afirmação. A outra é a de que o esvaziamento do Ipea é um fato comprovável pela “lista de técnicos que saíram da entidade nos últimos oito meses e comparar a média mensal dos Textos para Discussão publicados até 2007 com a dos últimos meses”.

Com relação à lista de técnicos que deixaram o Ipea, de novo Giambiagi fica devendo a própria e a prova. Cadê? Mas, quanto à produção de Textos para Discussão (TD), sua informação, também não acompanhada dos números comprobatórios, simplesmente não procede. Pelo menos de 1999 para cá, período em que tive a paciência de verificar pessoalmente, no site da instituição, o número de TDs publicados, com exceção de 2006, quando foram publicados mais de 200 textos, sempre variaram entre 60 e 80. No primeiro semestre de 2008, já sob a nova e contestada direção, pesquisadores do Ipea publicaram 22 TDs, número compatível com a média de 20 a 30 em vários anos, e acima dos 18 de 2004.

Fabio Giambiagi é o mesmo que, em nome de uma obsessão fiscalista chocante propôs uma absurda desidratação da Previdência Social, apoiado em dados alarmistas sobre o déficit previdenciário. Um déficit que ele artificialmente inflou, de um lado, por uma deliberada exclusão, no cálculo, de receitas devidas à Previdência e, de outro, pela inclusão entre as suas despesas de isenções e obrigações na verdade de responsabilidade do Tesouro, como a aposentadoria rural e a assistência social a idosos não contribuintes.

Para encerrar um lero-lero que já vai mais longo do que merecia, a batalha do Ipea se resume, de qualquer ângulo que se olhe, a muito barulho por pouco.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.