A economia nos dias seguintes

José Paulo Kupfer

17 de abril de 2016 | 18h04

É esperado que a retirada de Dilma Rousseff da presidência pelo processo de impeachment tenha um efeito positivo quase automático sobre a economia. É consenso que um novo governo capitaneado pelo vice Michel Temer terá, assim que instalado, um espaço de distensão e de expectativas de volta da confiança empresarial. Mas também é consenso que o prazo de validade desse quadro mais benigno tende a ser curto.

Supondo que as sombras do processo de cassação do mandato de Temer pela Justiça Eleitoral sejam afastadas e que a Lava Jato pelo menos modere o ritmo de suas fases e denúncias, restarão a serem superados, na economia, os mesmos desafios que se apresentavam antes do impeachment. Além da retórica, a tão cantada e desejada volta da confiança dos empresários, por exemplo, necessitará, para se sustentar, de ações concretas de difícil execução no curto prazo.

Uma delas é que sejam visíveis pelo menos indícios de recuperação da demanda — para que os atuais e volumosos estoques sejam consumidos, a elevada capacidade ociosa do momento seja ocupada e então novos investimentos possam ser realmente viáveis. Com desemprego em alta, inadimplência disseminada e crédito contraído, não será das tarefas mais simples promover essa recuperação.

A taxa de juros, nos níveis de hoje, é um complicador da equação de virada econômica. Além da barreira representada pela fraqueza da demanda, a confiança que destravaria o investimento privado depende de um elemento inexistente no momento: taxas de retorno acima do custo de financiamento do investimento.

A perspectiva de redução dos juros para um dígito, elemento concreto de alimentação da confiança e da retomada dos investimentos, preconizada por analistas que até ontem consideravam a hipótese improvável, diante do impulso fiscal expansionista, embutido nos insistentes déficits primários, cheira mais a desejo do que a uma real possibilidade, no horizonte visível.

A natureza cíclica do fenômeno econômico e os ajustes, bem ou mal, em curso na economia, ironicamente, serão um pequeno legado positivo de Dilma para seu sucessor. A forte recuperação da cotação do dólar e dos preços administrados, ambos represados no primeiro mandato da presidente, já está concluída ou quase. colaborando, em conjunto com a recessão profunda, para uma acomodação da inflação. Idem em relação à própria atividade econômica, tão no fundo do poço, que começa a cair em ritmo mais suave, rumo a um equilíbrio frágil em médio prazo.

Além de todos esses desafios, resta saber como se comportará a base aliada do novo governo — que antes, em boa parte, formava a base aliada de Dilma. Vai contribuir para recolocar a economia nos trilhos, apoiando o necessário ajuste fiscal estrutural e aceitando quase incontornáveis aumentos de tributos, antes que o crescimento recupere receitas públicas, cuja sangria de grande monta está na base dos déficits primários? Ou continuará promovendo pautas-bombas capazes de desestabilizar a condução da economia pelo governo?

Desde já, pode-se considerar que a primeira hipótese é a mais plausível. Mas, antes de se saber o teor dos acordos que permitiriam os votos necessários para o impeachment, a dúvida continuará fazendo sentido.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.