A fome não é só de comida

José Paulo Kupfer

12 de abril de 2008 | 12h05

Confrontado com o aumento do preço dos alimentos e com as pressões inflacionárias que isso tem produzido mundo afora, o presidente Lula, em visita à Holanda, disse ser esta uma “inflação boa”. É boa, na visão de Lula, porque reflete o fato de que a demanda aumentou e tem mais gente comendo ou comendo melhor. Também seria boa, na visão de Lula, porque provocaria os países a aumentarem a produção de alimentos.

Lula pode até ter razão na primeira parte de seu raciocínio. Mas, na outra, com todo o respeito, está muito enganado. Para superar o problema da alta dos preços dos alimentos, por conta de um aumento da demanda, não será preciso aumentar a produção.

A solução pode ser mais complicada, ainda que não seja exatamente trivial incrementar a produção de alimentos. A perda de valor do dólar e a redução dos estoques de alimentos têm levado os investidores internacionais a buscar ganhos mais altos nas commodities – as metálicas e, crescentemente, as alimentícias. A questão principal é a seguinte: como fazer para obrigar os especuladores a desovarem os estoques e, com isso, atender à demanda de alimentos*.

Os 6,5 bilhões de habitantes do planeta necessitam de um mínimo de 6 quatrilhões de calorias por ano para se alimentar decentemente. Levantamentos atualizados da FAO, a organização da ONU para alimentação e agricultura, projetam, para a safra 2008-2009, um volume recorde de 2,2 bilhões de toneladas de grãos. Esse total equivale a 9 quatrilhões de calorias anuais.

A aritmética mais elementar mostra que não há problema de produção de alimentos pelo simples e singelo fato de que está sobrando alimento no mundo. O excedente chega a 3 quatrilhões de calorias, o equivalente a cerca de um terço da produção total prevista de grãos na safra atual – ou seja, 750 milhões de toneladas**.

OK, há uma diminuição de estoques pelo lado da oferta por motivos climáticos. Há também um aumento da demanda de alimentos em geral e, em especial, do consumo de carnes – o que eleva a demanda de grãos usados nas rações. Há ainda um desvio de grãos, principalmente milho, para a produção subsidiada de etanol, nos Estados Unidos. E a tudo isso se soma uma elevação dos custos de produção, com a crescente mecanização das lavouras e o uso mais intensivo de derivados de petróleo, tanto na produção de fertilizantes e agrotóxicos, como nos tratores e colheitadeiras.

OK, para o Banco Mundial, nas palavras de seu presidente, Robert Zoellick (aquele que, quando representante de Comércio dos Estados Unidos, criticou, em fins de 2002, a posição do então presidente eleito brasileiro contrária à Alca e foi chamado por Lula de “sub do sub do sub”), vocalizando uma posição comum aos países ricos, “os biocombustíveis são sem dúvida um fator importante” no aumento da demanda por produtos alimentares e, na esteira, na elevação de seus preços.

São mesmo, mas sua contribuição para a crise alimentar que os países ricos e os organismos multilaterais acabam de descobrir, não pode ser considerada decisiva. Até porque essa situação não é nova e já não era explicada por uma suposta escassez na oferta de alimentos.

Faz tempo que a “revolução verde” ocorrida na agricultura propiciou a produção de calorias em volume suficiente para alimentar o mundo. Mas, ainda que os preços não estivessem em alta, como agora estão, restavam 800 milhões de famintos ou seres humanos em situação de insegurança alimentar – um contingente de nada menos de 12% da população mundial.

Há mais de duas décadas, a causa crítica da fome é a dificuldade de acesso das populações de baixa renda ao mercado. É um problema de renda e de inclusão, que deve ser enfrentado mais com programas de transferência de renda, do tipo Fome Zero e de seu sucessor ampliado, o Bolsa-Família, do que com novos aumentos de produção. O detalhe irônico da coisa é que Lula, logo ele, parece ter se esquecido disso.

(*) Esta é uma explicação adicionada depois da publicação da nota, para evitar desvios do debate principal: o autor sabe que
especuladores especulam com papéis, mas, não é bobo para não saber que, no fim das contas, eles dependem da especulação com estoques fisicos para fechar a conta.

(**) Idem: sim, claro, os bichos comestíveis também consomem alimentos. Mas o que consomem em calorias não chega a derrubar o argumento de que o problema da fome não é de produção.

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