A hipótese do exagero

José Paulo Kupfer

26 de julho de 2011 | 09h30

É difícil imaginar como estaria, neste momento, o nível de tensão, nos mercados financeiros globais, se, ao lado das angústias provocadas pelo espectro de um calote da dívida pública americana, a Europa não tivesse, finalmente, definido um roteiro politicamente mais consistente de resgate das dívidas gregas – e de prevenção para as atribulações de outras economias da zona do euro. Mas não é tão difícil imaginar que, superados por bem ou por mal os dilemas imediatos, novos focos de tensão darão o tom da economia mundial, num longo futuro próximo.

Dos dois lados do Atlântico, a moeda de troca do alívio de urgência para dívidas públicas insolúveis, mais do que muito provavelmente, será a adoção pelos governos quebrados de duros programas de austeridade fiscal. Não se pode ser contra tais programas, pois, como se sabe e se confirmou na atual crise, nem mesmo governos – inclusive aquele que detém o poder de emissão da moeda de reserva global – podem recorrer, ilimitadamente, a cheques especiais. Mas é legítimo temer as consequências da imposição de medidas saneadoras que transfiram, sem mitigações, a carga insuportável das dívidas públicas para a sociedade.

São grandes os riscos de que os pacotes de contração fiscal empurrados goela abaixo dos governos resgatados exagerem na dose. A hipótese do exagero é tão mais plausível quanto mais se combinem razões morais e teorias econômicas com cálculo político. E tanto nos Estados Unidos como na Europa, o ambiente político-partidário é propício a essa perigosa combinação.

Além do sincero desejo ideológico de punir irresponsabilidades fiscais, a oposição republicana, nos Estados Unidos, vislumbrou a oportunidade de colocar o governo Obama num córner político, na antessala da nova campanha presidencial. Na Europa, os alemães, que estão sendo chamados a pagar o grosso da conta, resistem a concordar com a ideia de que eles, que dão duro como formigas, devem aceitar desviar recursos para salvar – e, no fundo, premiar – as cigarras periféricas da união desconjuntada de países em que se meteram. Isso tudo com o apoio de linhas de pensamento econômico ainda hegemônicas, que recomendam ajustes fiscais a qualquer custo e em qualquer circunstância, como “solução” praticamente única para excessos – de dívidas ou de crescimento ou de ambos.  

De qualquer ângulo, enfim, e nos dois casos mais agudos da atual crise global da dívida, o quadro aponta para um roteiro em que só a cobrança de pesadas “reparações”, sob a forma de garrotes fiscais, será capaz de amolecer resistências aos projetos de resgate. Pode ser uma marcha insensata, mas desde quando a insensatez é exceção e não regra nos eventos históricos do tipo?

O século 20 – e, tendo em mente a crise atual, principalmente sua primeira metade – é um manancial de casos em que o caminho adotado para a solução de crises terminou dando origem a seu aprofundamento, com sofrimentos sociais prolongados e, em consequência, a germinação de desordens e barbáries. Os argumentos contrários ao excesso nas reparações cobradas da derrotada Alemanha pelo Tratado de Versailles, em 1919, não foram ouvidos. Também não foram ouvidos os argumentos contra os programas de contração fiscal que, em 1937, atropelaram a então incipiente recuperação mundial e estenderam a depressão até a grande guerra global dos anos 40. 

Mais uma vez, agora no início da segunda década do novo século, a solução de uma crise econômica, com potência para engolfar o mundo todo, pode se esconder no outro lado da moeda. Parece intuitiva a ideia de fazer uma economia pagar por seus excessos, restringindo seus gastos e forçando a formação de poupanças para o ressarcimento das dívidas, até porque é assim que devem agir as pessoas ou as famílias. Mas, refletindo um pouco mais, percebe-se que a receita caseira tende a conduzir a um paradoxo no plano macroeconômico: se todos resolverem poupar, a poupança tende a cair, na esteira da queda da renda.

Entre impor programas de redução de dívidas públicas descontroladas e estrangular o devedor há um espaço para aplicar a experiência histórica e o conhecimento mais atualizado. Essa experiência e esse conhecimento ensinam que, em ambientes recessivos, políticas fiscais demasiado apertadas acabam produzindo mais recessão.

O desafio, portanto, é encontrar a dosagem certa entre a contenção e o estímulo. Não é, porém, o caso para muito otimismo. Se a história costuma ensinar lições, a primeira delas é que as lições da história não são aprendidas.

 

 

 

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