A "maldita" política de renda é a chave do crescimento

José Paulo Kupfer

12 de março de 2008 | 13h56

É para comemorar o desempenho da economia brasileira em 2007. Menos até pelo ritmo de crescimento, que se acelerou, em relação aos dois anos anteriores, mas ainda deve aos demais emergentes, do que pelos elementos que impulsionaram a expansão.

Fica claro, nos dados preliminares divulgados pelo IBGE nesta manhã, que a alta de 5,4% no PIB de 2007 se deveu a um novo período de impulso no consumo, pela via do aumento da massa salarial e do crédito. Deveu-se, também, ao avanço nos investimentos em ampliação ou melhoria da capacidade de produção.

Crescer é sempre bom. Mas crescer com inclusão de novos contingentes de brasileiros ao mercado, reduzindo a concentração de renda, que mancha a ecologia social brasileira, é muito melhor. E crescer com capacidade produtiva para sustentar o crescimento, nem se fala.

OK, ainda ficamos devendo em relação aos emergentes, que, em 2007, cresceram em média perto de 8%. Contudo, não se pode esquecer, a bem da justiça, que, no Brasil, em duas longas décadas, expansão econômica acima de 5% é raridade. Desde 1987, número assim só foi registrado em 1994 e 2004.

No século XX, até os anos 80, o crescimento econômico histórico médio brasileiro alcançava 7% ano – simplesmente o mais acelerado de todo o planeta. Na década de 70, a média anual chegou a 8,63%, declinando daí em diante. Considerando os últimos sete anos, mesmo com os 5,4% de 2007, ainda não chegamos nem na metade desse ritmo de expansão. A média anual, de 2001 ao fim do ano passado, ficou em 3,31%.

Não vale a pena chorar sobre o leite derramado, mas poderia ter sido bem melhor. O Banco Central se assustou com o crescimento de 5,7% observado em 2004 e puxou o freio da política monetária no ano seguinte, abortando o que poderia ter sido o início de um ciclo de altas mais aceleradas e em linha com o crescimento mundial.

A barbeiragem exigiu esforços adicionais para encetar a retomada e os riscos de que novos erros semelhantes venham a ser cometidos não podem, infelizmente, serem descartados. Basta lembrar que, no início de 2007, os analistas de mercado, que utilizam o mesmo instrumental econométrico do BC para estimar o ponto máximo teórico de crescimento econômico sem pressões inflacionárias, projetavam uma evolução de apenas 3,5% para o PIB no ano. Os ajustes que foram sendo feitos ao longo do ano não escondem o tamanho do desvio da previsão – e, em conseqüência, do nível de imprecisão dos instrumentos utilizados para evitar um superaquecimento econômico.

Uma das principais lições transmitidas pelo crescimento da economia em 2007 é a de que está na hora de rever as teorias que condenam as políticas de renda como promotoras do crescimento, em razão dos generalizados desarranjos econômicos futuros de que, hipoteticamente, seriam portadoras potenciais. Os fortes aumentos reais do salário mínimo, a ampliação da abrangência dos programas de transferência condicionada de renda e a resistência a encolher os benefícios da previdência social pública estão na base dos resultados agora comemorados. Mas os variados e graves desajustes anunciados em tom ameaçador como inevitáveis não deram, pelo menos até aqui, o ar da graça.

Tanto o nível de desemprego quanto a informalidade, por exemplo, ao contrário das ameaças, em lugar de aumentar, estão diminuindo em ritmo mais do que razoável. Idem para o alardeado impacto fiscal da política de rendas, que seria fatal para sustentação das contas públicas. Não só os superávits primários não sofreram qualquer arranhão como a própria relação dívida líquida pública/PIB acelerou o ritmo de recuo.

A mudança do eixo estrutural dinâmico da economia, do predomínio das exportações para o mercado interno, é um fato auspicioso. Trata-se, desculpem a lembrança, de uma diferença marcante da política econômica do atual governo em relação a de seu antecessor, ao qual muitas vezes se creditam, mais na base da simpatia do que dos fatos da realidade, os êxitos econômicos de hoje.

Sabe-se que, no caso brasileiro, historicamente, os elementos da demanda doméstica são potencialmente melhores indutores do crescimento do que os componentes associados ao setor externo. Não é sem razão que a pífia expansão econômica do período 1996-2003 se caracterizou pelo predomínio das exportações.

Para 2008 as primeira indicações são de um novo período de crescimento do PIB acima de 5%. Há nuvens carregadas no horizonte da economia internacional e dúvidas sobre a agilidade do governo Lula em reverter, com a rapidez e eficácia necessárias, a arriscada estratégia vigente de manter o real valorizado, empilhando sem limites reservas cambiais. Mas as perspectivas são animadoras.

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