A nova "classe média"

José Paulo Kupfer

22 de dezembro de 2008 | 10h09

Muito interessante a entrevista do jornalista Rafael Pereira, na edição atual da revista Época, com o economista indiano Abhijit Banerjee (ler aqui). Banerjee, de 47 anos, é professor de economia internacional no MIT, e dirige o Abdul Latif Jameel Poverty Action Lab, centro de pesquisas e estudos da pobreza no mundo, da prestigiosa escola americana.

Banerjee conduziu, nos últimos anos, estudos abrangentes sobre a chamada “nova classe média” dos países emergentes – na verdade, a parcela da Humanidade que, com uma relativa ampliação do acesso à educação, conseguiu melhorar seu padrão de renda e, com a ampliação do sistema de crédito, chegar ao mercado consumidor, saindo da linha de pobreza.

Valer notar, em especial, a semelhança entre o tipo-padrão dessa nova “classe média” com as pessoas e famílias que ascenderam ao mercado, aqui no Brasil, nas últimas duas décadas e, com maior nitidez e aceleração, a partir do governo Lula.

Em tempo: a “classe média” de Banerjee é aquele conjunto que, no Brasil, a idéia antiga e convencional ainda classifica como “pobre”, numa confusão com a vasta parcela de “miseráveis”, cujas possibilidades e aspirações são muito mais modestas. Essa nova “classe média” reúne viventes com renda pessoal média diária entre US$ 2 e US$ 10.  Favor não esquecer que, no Brasil, quem consegue ganhar US$ 10 por dia está entre os 20% mais ricos.

Segundo Banerjee, o sonho dessa “classe média”, de trabalhadores urbanos – ou de “empreendedores” que, apesar do marketing e do discurso são mesmo trabalhadores por conta própria – é “manter o status e pagar as prestações em dia, ter uma TV e um veículo, que seria um carro compacto no Brasil e uma boa bicicleta na Índia, além de dinheiro para gastar nos problemas mais comuns de saúde”.

Mais uma vez – e pelas idéias e constatações de um economista indiano, na boa tradição intelectual que tem como ícone o Prêmio Nobel Amartya Sen -, somos lembrados de que o problema da pobreza faz tempo deixou de ser o de produção e se concentra na questão do acesso – renda, crédito, educação, saúde, segurança – aos bens e serviços já suficientemente produzidos para todos. Algo que o mercado, pelo menos sozinho, é incapaz de garantir.

 

Atualizado às 02:04, de 23/12/2008 (na última linha do quarto parágrafo é US$ 10 e não R$ 10, como antes estava grafado).