A nova "moda" da crise

José Paulo Kupfer

16 de junho de 2009 | 18h25

Meu jovem e sagaz interlocutor, o repórter de economia do Estadão, Leandro Modé, esteve em Genebra e em Frankfurt, na semana passada, a convite da Comissão Europeia, para um seminário sobre o euro para jornalistas latino-americano. A crise e seus desdobramentos, claro, foram os temas recorrentes das palestras e entrevistas – a última delas com Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu (BCE).

Leandro voltou cheio de gás e de histórias. Uma das mais interessantes é a dos temores em relação a uma eventual regorgitação da economia, depois de tantos bilhões e trilhões de dólares despejados na praça, sob a forma de uma recidiva da crise, agora com uma perversa combinação com surtos inflacionários. É conversa em geral de neoliberais e ortodoxos, mas está se alastrando.

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Aqui, um relato do Leandro sobre o tema:

A crise que já legou à posteridade palavras e expressões como “subprime” e “ativos tóxicos”  e espalhou nos últimos dias um novo jargão: estratégia de saída. Trata-se da elaboração de planos, por parte dos governos que têm promovido forte expansão fiscal, para estancar a deterioração das contas públicas e, com isso, evitar uma disparada da inflação no médio e longo prazo.

As autoridades do Banco Central Europeu (BCE) foram as primeiras a falar publicamente sobre o assunto. Como se sabe, o BCE herdou seu caráter ortodoxo do alemão Bundesbank. Se, nos EUA, o maior medo do cidadão comum é um repeteco da Grande Depressão dos anos 30, na Alemanha, o temor é a hiperinflação, que, para muitos, explica a ascensão de Hitler ao poder.

Sábado, o tema ocupou boa parte da agenda do encontro dos ministros de Finanças do G-8 na Itália. Nesta segunda-feira, foi a vez de o Fundo Monetário Internacional (FMI) chamar a atenção para o possível problema.  “Os estímulos monetário e fiscal poderão provocar preocupações com a inflação e aumento da dívida, exercendo pressão de alta nas taxas de juros. Esta interação dinâmica entre os desafios de curto prazo e de longo prazo mostram a necessidade de desenvolver e comunicar estratégias para saída deste extraordinário suporte à economia”, disse o Fundo, em relatório.

Na própria segunda-feira, o banco central americano (FED) tratou de responder ao FMI. “Eu não vejo pressão inflacionária levantando suas cabeças feias, em particular, se conduzirmos (a política monetária) de forma apropriada, o que eu acredito que estamos fazendo. Estamos atentos ao fato de que a inflação sustentável de longo prazo deriva da política monetária. O Fed já está trabalhando sobre uma estratégia de saída”, disse o presidente regional do Fed de Dallas, Richard Fisher. Ele é considerado um “falcão”, ou seja, ultraortodoxo. Em várias ocasiões, Fisher foi o voto dissonante no Fed contra reduções da taxa básica de juros apoiadas por todos os seus colegas de Comitê de Política Monetária (Fomc, em inglês).

Na academia e no próprio mercado financeiro, o debate sobre o tema está longe do consenso. Muitos dão como certo que as medidas de hoje resultarão em inflação alta num futuro nem tão distante. Outros argumentam que a economia ainda está muito fraca e, portanto, seria cedo para preocupações. Neste último grupo estão o prêmio Nobel de Economia do ano passado, Paul Krugman, e o ex-vice-presidente do Fed Alan S.. Blinder, que também é professor na Universidade Princeton.

Em artigo publicado há cerca de um mês no The New York Times, reproduzido no Brasil pelo jornal O Estado de S. Paulo, Blinder alerta para o risco de que 2010 ou 2011 se tornem outro 1936 – ano marcado por uma recessão dentro da Grande Depressão. Escreve Blinder: “No verão de 1936, o Fed observou o grande volume de reservas excedentes acumulado no sistema bancário, concluiu que essa montanha de liquidez poderia alimentar a inflação futura e começou a esvaziá-la. Por volta da mesma época, (o presidente Franklin) Roosevelt viu o que pareciam ser déficits orçamentários enormes, concluiu que era hora de colocar em ordem a casa fiscal e começou a aumentar impostos e reduzir despesas. A economia americana, que vinha saindo rapidamente do porão de 1933 a 1936, foi rudemente empurrada de novo escada abaixo, e os EUA experimentaram a chamada recessão dentro da depressão. O PIB encolheu 3,4% de 1937 a 1938.”

Olhando de hoje, é difícil dizer quem tem razão, pois há bons argumentos dos dois lados. O aumento das taxas dos juros futuros nas últimas semanas, sobretudo nos EUA, parece indicar que a maior parte do ‘mercado’ comprou a primeira hipótese. Não custa lembrar, porém, de outro legado que essa crise parece deixar para o futuro: as ferramentas tradicionais para medir a temperatura da economia e “prever” o que vem pela frente têm se mostrado falhas em meio a problemas tão graves.  Em outras palavras, o que parece certo não necessariamente se confirmará.  A conclusão óbvia e nada original parece ser: qualquer aposta que se faça, será nada mais do que uma… aposta.

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