A saída da crise nos EUA pode nos pegar

José Paulo Kupfer

30 de abril de 2008 | 11h01

O crescimento de 0,6% (em base anual), para a economia americana, no primeiro trimestre de 2008, que acaba de ser divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos veio muito melhor do que a mediana das estimativas de mercado. O mercado projetava um crescimento de 0,2% no período e estimava, para o ano, um avanço de menos de 1%.

Mesmo relativamente bem melhor do que o previsto, este não é um resultado capaz de reverter as expectativas de que a economia americana continuará em ritmo lento até o fim do ano. Ainda se espera uma retração no segundo trimestre, seguida de alguma recuperação nos dois últimos quartos do ano. No último trimestre, o mercado prevê um avanço anualizado de 2%.

Para uma economia que vinha crescendo em torno de 4% nos trimestres anteriores à crise no mercado financeiro, a freada não é pequena. Mas fica longe de uma recessão formal, definida, nos Estados Unidos, como a que se instala quando há dois trimestres consecutivos de recuo na produção doméstica.

Pelo teor do debate na economia, parece que os analistas se preocupam tanto com os movimentos mais lentos da economia americana quanto com a disputa para ver se ela já está em recessão ou não e, se está ou vai entrar, por quanto tempo. Saber se a economia está em recessão ou depressão é um esporte favorito entre os economistas americanos. Quanto a isso, melhor ficar com a anedota, tipicamente americana, que comprova a preocupação deles com o tema: recessão é aquele período em que seu vizinho fica desempregado; depressão é aquele em que você perde o emprego.

Se o espectro de uma recessão formal, por enquanto, pode ter ficado um pouco mais distante, as sombras de um prolongamento das dificuldades continua nublando o ambiente econômico. O setor imobiliário, um dos principais motores de uma economia, se é que ainda possível, continua em queda livre, no pior desempenho dos últimos 25 anos. E o consumo das famílias, que respondem por dois terços da atividade econômica americana, avançou modestíssimo 1% no trimestre, a pior taxa desde o segundo quarto de 2001, quando os americanos enfrentavam sua última recessão econômica.

A notar ainda a contribuição das exportações para o resultado que surpreendeu positivamente. É um sinal de que é por aí que os Estados Unidos tentarão evitar o pior e sair do buraco. Contam, para tanto, com a acentuada desvalorização do dólar, que pode empurrar goela do mundo afora, sua poderosa indústria e seus serviços de ponta, a preços de ocasião.

O significado disso é que a competição no mercado internacional, principalmente nos manufaturados, ficará mais dura para todo mundo. E que também haverá mais sangue e suor nos mercados domésticos. A petroquímica brasileira, por exemplo, já começa a sentir um ataque de seus concorrentes americanos.

Quem, entre os emergentes, quiser brincar de câmbio valorizado corre o risco, cada vez maior, de ver o que é bom para a tosse. Esse crescimento maior do que o esperado nos Estados Unidos, no primeiro trimestre do ano, deveria servir como alerta. A redução do crescimento que se espera lá, que talvez não seja tão grande por conta das exportações americans, pode acabar batendo aqui.

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