A Selic (no momento) não serve para nada

José Paulo Kupfer

08 de dezembro de 2008 | 14h41

O mundo gira, a lusitana roda, mas o pensamento econômico convencional não arreda pé. Por fragilidade conceitual, preguiça intelectual, rigidez ideológica, interesse material ou o que quer que seja, nem mesmo uma crise, como a atual, com poder para virar a economia de cabeça para baixo, consegue romper a muralha das idéias feitas. A discussão sobre a política de juros, às vésperas de mais uma reunião – a última do ano, amanhã e depois – do Comitê de Política Monetária (Copom) é mais um exemplo disso.

Forma-se, entre os chamados “analistas de mercado”, ou seja, entre os economistas convencionais de bancos e consultorias, o consenso de que o Copom deverá manter a taxa Selic na reunião de amanhã e depois, deixando para o início de 2007 o movimento de redução dos juros. “Ainda não é a hora, mas o viés é de baixa”, dizem. Parecem obedecer a uma lei não escrita, mas férrea, segundo a qual a hora de começar a cortar os juros é sempre na próxima reunião do Copom.

De acordo com essa visão, predominante no grupo dos economistas financistas, as razões que recomendariam tal atitude, em lugar de já começar o processo de corte da taxa, seriam, basicamente, três: 1) o momento ainda é de muita incerteza, melhor, portanto, esperar; 2) o câmbio está pressionado e uma redução dos juros poderia pressioná-lo ainda mais; e 3) com a liberação de compulsórios e de gastos públicos, ainda mais em combinação com a desvalorização cambial, a inflação pode recrudescer.

É óbvio, mais do que óbvio, no entanto, que uma economia em processo de desaceleração rápida não pode conviver com taxas de juros altas. Ensina o mero bom senso que, em situações como essa, qualquer taxa do mesmo nível da vigente antes do início da freada brusca deve ser classificada como alta. E, portanto, deve ser cortada.

Também é óbvio que a idéia de reduzir os juros tem a ver com a necessidade de melhorar a liquidez quando uma seca de recursos sobrevém abruptamente. Não é por acaso que, na outras economias, as autoridades monetárias não têm hesitado em derrubar os juros.

Manter os juros para evitar desvalorizações do real é algo que, no momento, não funciona. Quem vai se meter a fazer arbitragem de taxas hoje em dia? Quem vai, no quadro atual, querer apostar numa moeda inconversível? Tanto que, mesmo com o aumento da distância entre a taxa Selic e os juros praticados no resto do mundo, os dólares não só não entram como querem mais é sair.

Falar em pressões inflacionárias em período de corte seco na demanda, inclusive no mercado externo, só pode ser entendido como um vício de outros tempos ainda não inteiramente eliminado. Os viciados no combate à inflação sempre invocam os riscos de descontrole para defender sua obsessão. Mas o que dizer dos riscos de combater o fantasma de uma inflação sem condições de ficar de pé? Tantos os que, no dizer dos críticos neoliberais, querem um pouquinho mais de inflação quanto os que sempre estão querendo um pouquinho menos inflação são perniciosos à boa condução da política econômica;

O fato é que, no caso atual, de crise aguda e profunda, a taxa Selic não serve para muita coisa. Nada do que se fizer com ela mudará o quadro vigente. Por isso mesmo, melhor tirá-la do caminho, ajustando-a, com os devidos cortes, às suas congêneres pelo mundo, que já estão no dedão do pé de tão baixas.  

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.