A S&P e o mercado de títulos “confiáveis”

José Paulo Kupfer

18 de novembro de 2011 | 17h47

Não é a primeira vez que a agência de classificação de risco Standard & Poor´s (S&P) chega atrasada numa reavaliação do rating soberano do Brasil, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, pode ser criticada por afoiteza na decisão de elevar a nota brasileira. Isso já tinha ocorrido em 2008, quando a agência anunciou o “grau de investimento” para os títulos emitidos pelo Tesouro.

Já demorava, naqueles idos, para que a S&P graduasse o rating do Brasil. Mas pouco tempo depois do “grau de investimento” sobreveio a quebra do Lehman Brothers e o violento afundamento, no curto prazo, da economia brasileira, em meio a um colapso de crédito com sérias consequências para o mercado interno.

Agora, está ocorrendo alguma coisa bem parecida. A graduação do rating brasileiro pela S&P chega quase oito meses depois da Fitch e quatro meses depois da Moody´s. E, se bem que, comparativamente, a economia brasileira já merecesse estar alguns degraus à frente de onde está, o ambiente de vastas incertezas na economia global e as dúvidas sobre a capacidade de o governo entregar o aperto fiscal prometido para 2012 talvez pedisse um pouco mais de calma na avaliação.

Entender o funcionamento das agências de rating exige não esquecer que elas disputam um mercado específico. Trata-se, em resumo, de um mercado de terceirização de decisões de investimento. Muitos e muitos fundos e seguradoras estabelecem regras contratuais que limitam a ação de seus gestores, a partir das notas de risco dos papéis em que aplicam recursos de investidores. Alguns portfólios, por exemplo, não podem carregar mais do que uma dada porcentagem de títulos com este ou aquele rating, definido por uma ou mais agências de classificação.

Num momento em que o rating de boa parte dos papéis soberanos de economias desenvolvidas já foi rebaixado e pode cair ainda mais, surgem estímulos naturais para as agências “descobrirem” alternativas e ampliarem o leque de títulos bem classificados. Isso não quer dizer que os classificadores escolherão qualquer economia para graduar, mas é possível imaginar que eles se tornem mais “flexíveis” nas análises.

Nesta quadra de conturbação econômica, os indicadores brasileiros de solvência soberana, em comparação com o resto do mundo e, em especial, o mundo desenvolvido, são mais confortáveis – e, no fim das contas, “graduáveis”. Mas difícil contornar a sensação de que ao elevar o rating brasileiro, a S&P também está procurando ampliar seu próprio mercado de “oferta” de papéis “confiáveis” aos gestores de recursos e seus clientes.

 

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