A teoria do “pêndulo” resiste

José Paulo Kupfer

04 de maio de 2016 | 13h11

Reportagem da colega Claudia Trevisan, correspondente do Estado em Washington, mostra que a velha teoria do “pêndulo na América Latina” continua a funcionar perfeitamente. A teoria do “pêndulo”, formulada pelo autor deste blog há quase quatro décadas, em tempos de dívidas e crises cambiais recorrentes nestes países líderes regionais, ensina que Brasil, Argentina e México se revezam, periodicamente, na qualidade de “queridinho”, “malditos” e “limbo”, na classificação dos mercados.

Claudia acompanhou a participação da secretária de Comércio dos Estados Unidos, Penny Pritzker, na Conferência das Américas, evento anual promovido pelo Departamento de Estado americano. Em seu discurso, como relata a colega de Washington, Mrs. Pritzker contrapôs o pessimismo em relação à situação econômica brasileira com elogios à Argentina, agora sob a direção fortemente pró-mercado do presidente Mauricio Macri, eleito há menos de seis meses.

O exemplo mais notável da “teoria do pêndulo” se deu no período do Plano Cavallo, que, no início dos anos 90, pela mão do ministro Domingo Cavallo, no governo de Carlos Menem, adotou a paridade do peso com o dólar e um receituário liberal na economia. No começo, a inflação foi controlada e a economia registrou crescimento exponencial. FMI e comunidade financeira internacional apoiaram fortemente o “queridinho” de então, não poupando elogios à condução neoliberal da economia.

Mas, com as sucessivas crises financeiras globais, deflagradas por colapsos no México, países asiáticos e Rússia, na última década do século passado, a dívida externa argentina explodiu e a economia também entrou em colapso. A conversibilidade do peso caiu finalmente em 2002 quando o país já atravessava alguns anos de instabilidade política e a economia vivia uma grave contração, com a taxa de desemprego acima de 15%.

Na versão 2016 da “teoria do pêndulo”, o Brasil, que já foi “queridinho” nos anos Lula, assumiu o posto de “maldito” e o México se mantém no “limbo”. A Argentina, candidata a “queridinho” do momento, está nos primeiros capítulos de uma reforma econômica acentuadamente liberal que, de acordo com a revista The Economist, deve fazer a economia “piorar ainda mais antes de melhorar”. A conferir se a esperança de melhora se confirmará não apenas repetindo os soluços anteriores.