A timidez do caminho do meio

José Paulo Kupfer

20 de julho de 2011 | 19h43

Ao repetir suas últimas decisões, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, o Banco Central confirmou a manutenção da atual política monetária a conta-gotas. Mesmo tendo retirado do comunicado a expressão “por um período suficientemente prolongado” para o ajuste das condições monetárias, a percepção é a de que a estratégia não mudou.

Pode ser este o caminho menos arriscado diante de tantos dilemas com os quais a economia tem se defrontado, nestes primeiros tempos do governo Dilma, aos quais é preciso adicionar as enormes instabilidades e incertezas do cenário externo. Mas, a escolha leva o BC a uma inédita situação, na qual ele é acusado de timidez tanto por ortodoxos quanto por heterodoxos.

Para uns, o BC erra ao não aplicar doses agressivas de contração monetária, via altas alentadas dos juros. Na visão de outros, ao estancar, logo no começo, a aplicação de medidas macroprudenciais, o BC perdeu a oportunidade de conter pressões inflacionárias sem contribuir para aprofundar problemas em outros departamentos, sobretudo no setor externo e na política cambial.

O fato é que, ao escolher o caminho do meio, o BC mantém a economia em banho-maria. A inflação não sai do controle, mas fica roçando o teto e produzindo a percepção de que só volta para o centro da meta em 2013. Na mesma toada, a atividade econômica desaquece, mas, assim como a concessão de crédito, num ritmo tão lento que só permite enxergar a reversão das curvas com binóculo.

Está claro que o bom senso não recomenda nem puxadas violentas nos juros básicos nem o uso exclusivo de medidas administrativas de contenção do crédito. A primeira alternativa embute riscos de desorganização na produção doméstica e de ampliação, em níveis por demais perigosos, de vulnerabilidade externa. A outra, cuja função primordial é evitar as conseqüências nefastas da formação de bolhas de crédito, por sua própria natureza, pode apenas operar como auxiliar no desaquecimento da economia e na pacificação dos preços.

Crescentes restrições ao uso exclusivo e eventualmente exagerado desta ou daquela medida indicam uma perda de potência da política monetária. Esta só poderá ser recuperada com reformas financeiras que reintroduzam funcionalidade ao tripé segurança-rentabilidade-liquidez nas aplicações financeiras e aprimoramentos no sistema de metas de inflação. Mas, se o governo também não descer do muro na política fiscal – e continuar obtendo superávits somente pelo lado da arrecadação – nenhum esforço de ajuste acabará dando certo.

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