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A volta do que não foi

José Paulo Kupfer

14 de fevereiro de 2008 | 01h47

Ainda não se pode dizer que os preços ao consumidor estejam bem comportados, só porque os índices de janeiro tenham recuado em relação ao fim do ano. Mas o ritmo das altas, principalmente dos alimentos, que empurraram a inflação para cima no último trimestre de 2007, parece em refluxo.

Com todo o respeito aos mais assustados, era previsível que a pressão logo começasse a ceder. O que vinha puxando os índices eram os alimentos. E alimentos, por sua própria natureza, salvo em situações especiais, não são capazes de sustentar altas exorbitantes de preços por muito tempo.

Alimentos são naturalmente elásticos a preço (e também a renda). Significa que, quando o preço aumenta demais, a tendência é que sejam substituídos. Na volta do parafuso, isso provoca um encolhimento da demanda e, em conseqüência, o retorno dos preços a níveis de normalidade.

O que ocorreu agora, sobretudo com o leite e com a carne, cujos preços dispararam por choques restritos de oferta, não é uma novidade na longa e tempestuosa história inflacionária brasileira.

Nos idos dos anos 60 e 70, produtos da cesta alimentar lançaram a inflação nas nuvens, atazanando a vida de ministros poderosos. Primeiro, Antonio Delfim Netto, ministro da Fazenda entre fins de 1960 e meados de 1970, às voltas com o Índice do Custo de Vida no Rio de Janeiro (ICV-RJ), calculado pela Fundação Getúlio Vargas, que fazia parte do Índice Geral de Preços (IGP, no conceito de disponibilidade interna), o índice de inflação oficial do período. O então “Czar da economia”, como era chamado, nos tempos do “Milagre Econômico”, tinha de se abalar para despachar assessores pelos poucos países produtores de feijão preto – item pesado no orçamento das famílias cariocas -, para suprir a escassez do produto que impactava fortemente o custo de vida no Rio e, portanto, a inflação brasileira.

Depois, Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazendo em fins dos anos 70, engalfinhado com uma cucurbitácea. O “Professor”, como era chamado , se viu na contingência de mudar a metodologia de cálculo do índice, para reduzir o efeito de uma alta extraordinária do preço do chuchu, no final de um verão chuvoso. Por decreto de Simonsen, todos os produtos do orçamento familiar que compunham o ICV, passaram a ter elasticidade-preço unitária – ou seja, a cada aumento de 1% no preço, o consumo do produto e seu peso no orçamento padrão, sofriam uma redução automática de 1%. A mudança, pouco tempo depois, caiu em desuso.

Quase quatro décadas depois, as cenas explícitas de inflação foram substituídas pela elegância de uma política monetária aplicada de modo clássico. Mas as altas exorbitantes do tomate, num mês chuvoso, ou da carne, num período de entressafra, se não fazem ministros se descabelarem, ainda têm o poder de acionar a mão pesada do Banco Central e retardar – ou mesmo abortar, como em fins de 2004 – as ondas de crescimento de que o Brasil, volta e meia é acometido. Inutilmente.

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