A volta dos que não foram

José Paulo Kupfer

24 de novembro de 2008 | 19h47

Por Leandro Modé

A disparada do dólar, no mercado cambial brasileiro – e de outros emergentes – reflete, antes de mais nada, o fato de que são economias emergentes e de moedas não conversíveis. Num mundo em que o dólar ainda não tem competidores como moeda de reserva global, crises, mesmo com epicentro na economia americana, provocarão a troca, tão rápida quanto possível, de moedas locais pela moeda de reserva – ou por suas quase congêneres, como o iene japonês.

 Mas a pressão também expressa uma piora das expectativas em relação às economias emergentes. Num primeiro momento, imaginava-se que esses países sobreviveriam incólumes à crise global. Depois, percebeu-se que a saúde de alguns deles não estava tão boa assim para suportar o tranco. Encaixavam-se nessa avaliação as nações do Leste Asiático, principalmente a Hungria. A derrocada das commodities, em especial do petróleo, provocou um ataque especulativo à Rússia. Agora, vive-se uma quarta fase, cujo foco está na América Latina.
 
Há grandes dúvidas sobre o futuro próximo de México (por causa do impacto na veia da crise americana), Venezuela (petróleo, tal qual a Rússia), Equador (ameaça de calote do presidente Rafael Correa) e Argentina (dúvida sobre a capacidade de honrar suas dívidas, também em decorrência da derrubada das commodities). Embora a visão sobre o Brasil não seja tão pessimista – ao menos por ora -, o real acaba sofrendo por tabela.
 
É nessas horas que fica claro um fato da vida.  As moedas emergentes adoecem de um mal de origem: não são conversíveis. “A crise financeira nascida nas mansões dos pródigos abastados barrou a entrada dos intrusos e mostrou que os saraus das moedas conversíveis não admitem penetras”, escreveu o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo na “Folha de S. Paulo”.
 
Seu colega americano Dani Rodrik, em texto reproduzido pelo Valor sexta-feira, vai na mesma linha. Ele abre o texto dizendo: “Se o mundo fosse justo, a maioria dos mercados emergentes estaria assistindo à crise financeira que engolfa as economias mais avançadas do mundo à distância.” Como sabemos, não estão. E suas moedas sofrem. Além de não ser justo, o mercado engana os incautos. Sorri para as economias que seguem suas diretrizes, mas as abandona à própria sorte na primeira turbulência.
 
Rodrik tem uma proposta para evitar que os emergentes sejam dragados pela crise americana. O FMI e os bancos centrais dos países do G-7 deveriam “fornecer liquidez ampla” para dar apoio às moedas dos emergentes. Além disso, defende que a China desembolse parte de seus US$ 2 trilhões de reservas com o mesmo objetivo. Rodrik nota que o gigante asiático é o país que mais tem a perder no caso de um aprofundamento da crise global.
 
Essa análise ‘estrutural’ do cenário, porém, não explica tudo. Há ao menos dois outros fatores que têm empurrado para baixo a moeda brasileira – ambos relacionados a questões internas. O primeiro deles está ligado aos derivativos tóxicos. Quanto mais alto é o valor da moeda americana, maior é a dívida das empresas que se meteram nessa encrenca.

Analistas observam que, com o dólar a R$ 2,10, R$ 2,20, a situação estava relativamente controlada. Agora, volta-se a temer pela solvência de alguns dessas companhias, sobretudo as de menor porte. Muita delas, desesperadas com a nova pernada da cotação, estariam indo ao mercado para comprar moeda para honrar seus compromissos, o que realimenta o ciclo de alta.
 
O segundo fator é a atuação do Banco Central no mercado de câmbio, que tem sido duramente criticada por alguns profissionais do mercado financeiro. Segundo eles, a política do BC de fazer leilões diários do famoso swap cambial (para poupar as reservas internacionais) tem servido como um seguro para quem quer apostar contra o real.
 
O mecanismo é relativamente simples de entender: investidores, principalmente estrangeiros, vão à Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) e compram dólar a futuro, o que pressiona a cotação no mercado à vista. Esses mesmos investidores compram contratos de swap cambial e ganham quando a variação do dólar é superior à do juro, o que vem acontecendo largamente desde que a crise se aprofundou, de setembro para cá. Ou seja, o mesmo investidor ganha duas vezes: com as posições no mercado futuro e com os swaps. Segundo os profissionais que criticam a atuação do BC, a estratégia atual é um convite à especulação contra o real.
 
Para eles, a solução é o BC ser mais agressivo na venda de dólar em espécie. Sem, evidentemente, torrar as reservas, como Gustavo Franco fez em 1998 para tentar segurar a paridade real-dólar. O argumento desses especialistas é o de que, ao vender dólar no mercado, o BC diminuiria o montante de swaps cambiais. Ou seja, tiraria parte do seguro desses investidores e, por tabela, tornaria mais arriscada a especulação, pois os leilões de moeda física poderiam fazer a moeda brasileira recuperar terreno ante o dólar.

Comentário

As críticas que o Leandro levanta podem fazer sentido. Mas é bom não esquecer que, ainda que tudo isso fosse feito nos conformes, a fuga das moedas emergentes para o dólar seria apenas amenizada.

O senso comum imagina que moeda forte significa economia forte. A verdade passa longe disso.    

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.