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Ainda é cedo para conclusões definitivas

José Paulo Kupfer

09 Novembro 2016 | 15h51

Da profusão de análises, palpites e chutes de como ficará a economia mundial — e, no nosso caso, os reflexos na situação econômica brasileira — com a chegada do bilionário empresário Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Uma síntese das toneladas de comentários, escritos e falados, já despejados desde a oficialização do surpreendente evento pode ser resumida na amplificação dos significados da palavra “incerteza”. A eleição de Trump, ao lado do Brexit, no Reino Unido, e da ressurreição de movimentos xenófobos e racistas mundo afora, consolida a noção de que está em curso uma era sombria e de mais incertezas. Por isso mesmo, ainda é cedo para conclusões definitivas.

Desde o crash de 2008, desenhou-se para a economia global, de fato, um horizonte enevoado, repleto de dúvidas sobre o que teria falhado nos mercados e quais seriam os caminhos da correção de rumo, na direção da retomada de um crescimento sustentável. Os corretivos aplicados — austeridade fiscal e relaxamento monetário — ainda não produziram, nos oito anos que já se passaram de lá para cá, nem o esperado reequilíbrio, nem a desejada recuperação da atividade econômica.

Ao estender a recessão ou, o que dá quase no mesmo, perenizar um ritmo de crescimento muito modesto, as saídas postas em prática pelo establishment econômico terminaram expondo, em tons dramáticos, as consequências de décadas em que predominaram, sem os devidos contrabalanços, liquidez irracional e exuberância rentista. Traduzidas em   desigualdade de renda e bloqueio de oportunidades de ascensão social

essas consequências adubaram o terreno político para o surgimento de outsiders, com discurso xenófobo e de aversão à política, acenando com promessas de corte em gastos sociais, em troca de redução de impostos e suposto relançamento econômico.

A lenta, mas firme consolidação de ideias — e partidos — isolacionistas moldaram a matriz que já levou ao Brexist e agora à eleição de Trump. Com alguém jamais testado na prática cotidiana da política à frente do governo, a democracia americana colocará à prova o seu tão celebrado sistema de “checks and balances”.

Emerge, na maioria das análises de primeira hora, a ideia de que esse sistema impedirá Trump de levar adiante, na Presidência, todas as promessas de campanha, sobretudo algumas entre aquelas mais estapafúrdias. E mesmo com o controle republicano da Câmara e do Senado. Também emerge a impressão de que os impactos de Trump no comando da economia americana serão mais fortes no comércio internacional e nos tempos do clima e da sustentabilidade ambiental. Retrocesso nesses últimos temas e uma onda protecionista ao redor do mundo são esperados.

Mas também aqui há alguns contrapesos a considerar. Choques com a China, em matéria de comércio, estão no radar de todos, mas é preciso indagar: Trump por acaso vai jogar ao mar as fábricas americanas que se aproveitam da mão de obra chinesa barata e das regras trabalhistas frouxas de lá?

Num mundo entrelaçado pela internet e com alta fluidez na circulação de capitais, as propostas protecionistas, no lado do comércio de bens e serviços, tendem a ser menos eficazes. A essa circunstância atenuadora se deve adicionar a necessidade de expandir mercados deste atual mundo de prolongado baixo crescimento. Os ajustes ocorridos nos mercados financeiros globais, depois dos primeiros momentos de pânico e derrubada das cotações, são um indicativo de que ainda é cedo para conclusões definitivas.

Na grande maioria das análises de primeiro momento, o Brasil não aparece como particularmente afetado. Primeiro porque tem economia fechada, não devendo sofrer maiores impactos na suposta tendência isolacionista que estaria por se espalhar, e depois porque não está na lista das preocupações e interesses de Trump.

Também aqui a sugestão é refletir um pouco mais e com mais calma antes de chegar a alguma conclusão. A economia brasileira é realmente fechada quando se observa do ângulo do comércio exterior, mas aberta no lado financeiro e dependente do vaivém da cotação de commodities. Por isso, é tradicionalmente afetada, na mesma direção das ondas de contração e expansão da atividade econômica global. No presente caso, não custa lembrar, o realinhamento com os Estados Unidos, em detrimento das relações com outros polos de poder global —Brics, por exemplo —, desenhado pelo governo Temer, não parece ter sido encetado em boa hora.