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Ainda muito longe de um subprime à brasileira

José Paulo Kupfer

22 de fevereiro de 2011 | 18h51

Não é de hoje que a disparada dos preços dos imóveis e da terra no Brasil provoca um zunzunzum sobre uma eventual bolha de preços nesse setor da economia. Por ora, a maioria dos especialistas descarta a possibilidade. Afirmam, entre outras coisas, que a alta dos últimos anos se explica pelo destravamento do crédito imobiliário pelo sistema financeiro. Novidade, mesmo, é alguém falar em crise do subprime por aqui.

Soa estranho, mas foi exatamente isso que escreveu no prestigioso jornal britânico Financial Times, um celebrado gestor de fundos de hedge (aqueles que apostam em tudo quanto é tipo de instrumento financeiro mundo afora). O argumento de Paul Marshall é o de que o crédito no Brasil vem crescendo em um ritmo forte demais e, em algum momento lá na frente, vai estourar. Como estourou a bolha dos financiamentos a clientes de baixa renda (segmento que era conhecido como subprime) nos EUA.

É difícil, ao menos neste momento, concordar com Marshall. Por razões estruturais e conjunturais. Estruturalmente, o mercado de crédito no País é mais amarrado do que nas economias desenvolvidas. Tanto por causa da mão pesada do Banco Central quanto pela cautela dos bancos em liberar dinheiro. Em ambos os casos, o cuidado se deve a (poucas) más experiências do passado.

Não é preciso ir muito longe para lembrar de uns tantos bancos que quebraram por causa de má gestão naquela que é a função principal de uma instituição financeira: emprestar dinheiro. Bamerindus, Nacional, e, agora, ao que tudo indica, o próprio Panamericano são bons, mas relativamente raros exemplos.

Há outras razões estruturais para não dar muito crédito ao alerta de Marshall. Os financiamentos no Brasil são, em geral, baseados em pagamentos de prestações prefixadas. Ou seja, o devedor não fica sujeito aos efeitos das oscilações das taxas de juros. Foram justamente os empréstimos com juros pós-fixados que quebraram milhões de americanos na crise do subprime e, por extensão, vários bancos (a maioria deles só não foi à bancarrota porque os governos os salvaram).

Conjunturalmente, há ao menos dois fatores a considerar. Primeiro, as chamadas medidas macroprudenciais adotadas pelo Banco Central no fim do ano passado. O nome é horrível, mas o que ele traduz nem um pouco. Expressa uma ação do BC na identificação e na prevenção de potenciais problemas em alguns segmentos do mercado. Adotou medidas que, na prática, encareceram o custo do dinheiro nesses segmentos e freou a velocidade de expansão do crédito.

O outro fator é a própria desaceleração do ritmo de crescimento da economia. Depois de um 2010 exuberante (com uma expansão do PIB muito provavelmente acima de 7,5%), o País deve avançar em 2011, segundo as mais recentes estimativas, em torno de 4%. E já há quem fale em 3,5% ou, em análises no momento, digamos, mais ousadas, até abaixo disso.

Uma conta simples mostra que, em geral, o crédito cresce entre três e quatro vezes a alta do PIB. Ou seja, os empréstimos cresceriam, neste ano, no máximo um pouco mais do que 15%. Nada de excepcional.

É mais um indicativo de que apostar, neste momento, na existência de grandes e generalizadas bolhas especulativas não é uma ideia das melhores. Subprime, então, num mercado em que inexiste qualquer tradição de negociação de hipotecas, nem se fale.

OK que, conforme o tamanho da freada na economia, alguns endividados em excesso, percam renda e peçam água. Mas, não há espaço para colapsos em cadeia. A falta de sofisticação das modalidades de financiamentos é, ela mesma, um seguro contra efeitos-dominó.

A conversa descabelada de Marshall, no fim das contas, vai na linha de alguns, talvez menos preocupados com suas reputações do que com plateias dispostas a lhes garantir aplausos fáceis, que alardeiam um descontrole (não confundir, por favor, com pressões fiscais e em determinados grupos de preços), pelo menos até aqui inexistente na economia brasileira.

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