Além do previsto

José Paulo Kupfer

21 de dezembro de 2011 | 16h47

É possível dizer, a dez dias do fim do ano, que a maior surpresa do ano na economia – e surpresa positiva – veio do setor externo. Mesmo que dezembro repita, como projetado pelo Banco Central, o déficit histórico mensal registrado em novembro, a balança em transações correntes apresentará, no acumulado do ano, números muito melhores do que os estimados no início de 2011.

Quando o ano começou, os analistas do mercado financeiro consultados pelo Banco Central previam um saldo comercial de US$ 8 bilhões e um déficit em contas correntes de US$ 68 bilhões. O próprio Banco Central projetava um saldo comercial de apenas US$ 11 bilhões. Na realidade, a balança comercial fechará 2011 com um saldo 3,5 vezes maior e o déficit em transações correntes ficará 22% abaixo do estimado.

Num ano em que a taxa de câmbio rodou bastante valorizada em relação ao dólar nos três primeiros trimestres e num ambiente de crise grave na economia global, a explicação para o surpreendente desempenho das contas externas brasileiras tem um nome e uma procedência. O nome é commodities e a procedência, China.

A China, coadjuvada de longe por outros emergentes, manteve aquecido o mercado internacional de produtos básicos. Se, de um lado, esse fato significou, para o Brasil, pressões inflacionárias, de outro, foi decisivo para alavancar as receitas de exportação. Ao término de 2011, três em cada quatro dólares obtidos com a venda de mercadorias brasileiras ao exterior vieram de commodities.

Ainda que as exportações tenham levada a balança comercial a um resultado surpreendentemente positivo – o que, por sua vez, evitou maiores déficits em transações correntes –, a evolução das contas externas não deveria deixar de preocupar. Mesmo com o ingresso de investimentos externos diretos recordes – também bem acima das previsões do início do ano – o que não tira o sono hoje pode ser causa de pesadelos amanhã.

O bom desempenho da balança comercial não esconde o acentuado encolhimento registrado na participação dos manufaturados na pauta de exportação. Esse é um fenômeno revelador da existência de problemas estruturais de competitividade e jamais deveria deixar de preocupar. Agregar valor aos produtos é crucial também no comércio exterior, para evitar termos de troca desfavoráveis.

Isso é verdade mesmo quando, em ambiente global conturbado, os déficits em conta corrente se mostram manejáveis, mantendo-se abaixo de 2,5% do PIB. Como ocorrerá neste ano e, segundo as previsões, também em 2012, apesar da redução de quase 20% projetada no saldo comercial.

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