Alívio em itens que disseminam inflação explica recuo mais forte 

José Paulo Kupfer

07 Dezembro 2018 | 16h27

Desossada de inúmeras interferências e influências, inflação é a medida das relações entre oferta de bens e serviços e a procura por eles. As medidas de inflação, que medem as variações de preços entre dois períodos de tempo, operam como um termômetro da temperatura da economia. Quando o aquecimento da procura supera o da oferta, o termômetro aponta para cima. Quando se dá o contrário — a oferta é maior do que a procura —, a temperatura marcada no termômetro desce.

A desinflação mais forte, de 0,21%, observada na variação do IPCA em novembro, tem a economia em estado de quase recessão como pano de fundo. Com esse resultado, a inflação do ano, faltando apenas mais um mês para seu encerramento, chegou a 3,59%, alcançando 4,05%, no acumulado em 12 meses.

Esse quadro desinflacionário tem como moldura uma alta e persistente ociosidade da capacidade instalada na economia, que pressiona para baixo o conjunto dos preços livres. O resto das forças que empurram a inflação para o terreno negativo vem de itens com elevado peso de difusão entre os setores produtivos.

É o caso da energia elétrica, dos combustíveis e, no geral, da taxa de câmbio, que recuou das altas do período pré-eleitoral, para níveis mais apreciados, em novembro. A mudança dos ventos nesses componentes produziu uma volta atrás nas projeções para a inflação no conjunto de 2018. Até há algumas semanas, as previsões eram de uma alta do IPCA em torno de 4,5%, centro da meta para este ano. Agora, com as perspectivas de estabilidade na alta de preços em dezembro, as estimativas apontam para uma inflação, para conjunto do ano, nas vizinhanças de 3,5%. 

Energia elétrica passou da bandeira vermelha 2, em outubro, para amarela, em novembro — e não deve ter elevações extraordinárias em dezembro. Com isso, o tem Habitação recuou 0,71% no mês. Ao mesmo tempo, as sucessivas reduções dos preços dos combustíveis, em razão das quedas nas cotações internacionais do petróleo, fizeram o item Transporte terminar novembro em 0,74 negativo.

Tais quedas foram complementadas por recuos em Vestuário e Cuidados pessoais, itens que respondem mais diretamente à atividade econômica e costumam espelhar as consequências negativas na demanda da elevada taxa de desemprego e do crescente aumento da informalidade, no mercado de trabalho. Não por coincidência, os núcleos de inflação mais sensíveis aos ciclos econômicos estão rodando abaixo do piso do intervalo do regime de metas, que é de 3%, em 2018.

Tal é a falta de tração na economia — as projeções para o crescimento em 2018 não chegam a 1,5% —, que cresce entre os analistas financeiros a convicção de que o Banco Central teria espaço para cortar a taxa básica de juros, na reunião da próxima semana, reforçando o caráter estimulativo que vem imprimindo à política monetária. Porém, dado o momento de transição de governo, é mais provável que a taxa Selic seja mantida em 6,5%, com as apostas para 2019 de uma trajetória mais moderada dos juros do que a anteriormente desenhada.