Análises frágeis

José Paulo Kupfer

18 de fevereiro de 2014 | 08h52

O Brasil tem frequentado, para o bem e para o mal, algumas da muitas siglas inventadas por economistas do mundo financeiro, que procuram encontrar afinidades entre economias diversas, com o objetivo de orientar e facilitar decisões das nuvens de investidores globais. Foi assim no caso dos Brics, criação que fez a fama de Jim O’Neill, do Goldman Sachs. E está sendo assim agora com os “cinco frágeis” (FFs, na sigla em inglês) invenção de James Lord, do Morgan Stanley. Agora, o País entrou em posição indesejável em outro ranking, este ainda de maior prestígio, assinado pelo Federal Reserve, o banco central americano.

No fundo, a construção de Brics, FFs e outras siglas do gênero expressa o esforço, com ares científicos, de bater bananas, laranjas e abacaxis em liquificadores metodológicos, com os quais são produzidas vitaminas que possam atender à obsessão do mundo contemporâneo por listas e rankings. O fato de as mesmas economias fornecerem letras para diferentes siglas, tanto positivas quanto negativas, diz quase tudo sobre a credibilidade dessa moda e a fragilidade das análises em que se baseiam os rankings.

O ranking do Fed, com todo o peso da instituição, publicado recentemente no relatório semestral de política monetária, não foge à regra. No documento, o Brasil ocupa, logo atrás da Turquia e à frente de Índia, Indonésia e África do Sul, o posto de economia mais vulnerável às mudanças na liquidez internacional. A correlação estabelecida encontra uma causalidade positiva entre um índice de vulnerabilidade externa do país e o nível das desvalorizações de sua moeda. Tal índice explicaria 70% da depreciação cambial verificada desde abril de 2013, quando o Fed deu os primeiros sinais de que iniciaria a reversão dos estímulos monetários. Não chega a ser, logo de cara, uma aderência entusiasmante.

Na composição do seu índice de vulnerabilidade, o Fed considera o volume de reservas cambiais, o tamanho da dívida pública bruta e do déficit em transações correntes, todos em relação ao PIB, além da inflação média, nos últimos três anos, a expansão do crédito, nos últimos cinco anos, também em relação ao PIB, e a relação entre dívida externa e exportações.

Parece fazer todo o sentido, mas esta é uma vitamina indigesta do ponto de vista técnico. A razão entre reservas cambiais e PIB, por exemplo, não diz muito sobre a situação externa. Diria se as reservas fossem comparadas a indicadores do setor externo, como saldos comerciais, fluxo de comércio ou balança em transações correntes. A expansão do crédito, de sua parte, depende da base inicial de comparação.

Para encurtar a história, não deixa também de ser curioso que se, além dos 15 emergentes selecionados, o Fed avaliasse igualmente economias avançadas, seu índice determinaria a inclusáo dos Estados Unidos, emissor da moeda de reserva internacional, entre os mais vulneráveis. Só isso é suficiente para mostrar que, sem levar em conta as características dos mercados cambiais locais, o que fica frágil são as análises das vulnerabilidades de cada um..

O mercado de câmbio no Brasil, por exemplo, é mais profundo e líquido do que o de outros emergentes, com forte atividade em futuros — o que faz as cotações do real, costumeiramente, se valorizarem ou desvalorizarem mais do que as demais moedas ante o dólar. No fim de tudo, fica esquisito colocar a economia brasileira no pódio dos mais vulneráveis.

É verdade que a economia brasileira vive uma etapa de desequilíbrios macroeconômicos e que o quadro externo sofreu forte deterioração. Mas também não pode ser esquecido que o País é credor internacional líquido, o déficit externo, coberto em 80% por investimentos diretos, está abaixo de 4% do PIB e as reservas internacionais cobrem um ano e meio de importações.

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