Analistas consideram IBC-Br de julho como “falso positivo”

José Paulo Kupfer

17 Setembro 2018 | 15h54

O IBC-Br de julho trouxe uma surpresa positiva, com alta de 0,57% sobre junho, bem acima das projeções conhecidas, que apontavam estabilidade, na comparação com o mês anterior. Surpreendeu o fato de o indicador mensal de atividade econômica do Banco Central ter registrado expansão mesmo com as pesquisas do IBGE demonstrando recuos na produção industrial, no comércio varejista e no volume de serviços, com alta modesta nas estimativas da produção agrícola.

Mesmo assim, as perspectivas não são animadoras e a economia, segundo analistas, deve mostrar, nos próximos meses, ritmo ainda mais lento. Eles têm observado que a trajetória do IBC-Br tem discrepado mais do que a sua tendência histórica da variação do Produto Interno Bruto que ele pretende antecipar. Não que o índice do BC vise a ser de fato uma “prévia” do PIB, como se costuma rotular. Mas, de todo modo, embora seja construído de forma diversa da utilizada para aferir a evolução efetiva da economia, objetiva captar as tendências do comportamento econômico.

Isso não tem ocorrido, mais recentemente, pelo menos a partir do início do segundo trimestre e a disparidade ganhou intensidade depois da greve dos caminhoneiros. IBC-Br indicou, por exemplo, um recuo de 0,8% na atividade entre abril e junho, ao passo que o PIB registrou expansão de 0,2% no mesmo período.

Simulações para o PIB de julho, como as elaboradas pelos economistas do Banco Itaú, sinaliam crescimento, embora mais modesto, de 0,3%. Para o terceiro trimestre, o Bradesco prevê alta de 0,2% para o PIB, mantendo o ritmo lento de expansão verificado no segundo trimestre de 2018.

Para analistas, o ambiente econômico do momento faz com que a trajetória do IBC-Br informe pouco sobre o real movimento dos negócios na economia. O resultado de julho seria uma espécie de “falso positivo”. A tendência é a de manutenção de um ritmo de crescimento insuficiente até o fim do ano, que pode ser classificada como uma “quase recessão”.

Ainda que os impactos negativos da greve dos caminhoneiros, em maio, já tenham se dissipado, restaram sequeles fortes nos índices de confiança de consumidores e empresários. Agravadas pelas incertezas eleitorais e pela situação menos confortável na economia global — que colaboram para manter o dólar pressionado — as condições financeiras se mostram mais “apertadas”, como dizem os analistas, permitindo antever dificuldades para uma retomada mais vigorosa no futuro próximo.

O encerramento do ciclo de afrouxamento monetário — a taxa básica de juros deve permanecer inalterada na reunião do Comitê de Política Monetária  (Copom) desta quarta-feira e assim permanecer até depois das eleições, mas há pressões de alta em formação — determina um freio nas expectativas de redução dos juros dos empréstimos. Ao mesmo tempo a taxa real de juros da economia pulou de 2% para 4%, nos últimos meses.

Assim, as perspectivas de consumo, já atrapalhadas pela taxa elevada de desemprego e de informalidade da mão de obra, e de investimentos, engessadas pela generalização das incertezas, seguem rebaixadas. Não é por coincidência que as projeções medianas do mercado para o crescimento da economia em 2018 vêm caindo semana após semana.

No Boletim Focus desta segunda-feira, a variação do PIB, em 2018, recuou de 1,4% para 1,36%. O movimento para baixo deve prosseguir nas próximas semanas, estabilizando somente quando as projeções do crescimento econômico neste ano alcançar o entorno de 1%.