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Apagão de explicações

José Paulo Kupfer

16 de novembro de 2009 | 09h18

É sabido que, pelo menos no Brasil, quando não se quer resolver um assunto, cria-se uma comissão. Mas, no caso do blecaute que atingiu 18 estados e mais de 60 milhões de brasileiros, na noite de 10 de novembro, só uma comissão resolverá a questão. Esse é o único jeito de evitar, não só o “achismo” sobre as causas do apagão, mas outras e mais graves conseqüências do evento, muito maiores do que as oriundas da exploração política do episódio.

O exemplo são os apagões de 1999 e 2000, que desaguaram no racionamento de 2001. Sim, sim, as situações não são as mesmas e o que ocorreu agora parece muito menos estrutural do que o acontecido há quase uma década. Mas, se não houver uma explicação consistente e convincente, alguns dos piores efeitos do blecaute pontual da terça-feira serão idênticos e nefastos. Um dos principais, senhores, é a introdução de um elemento de incerteza quanto à oferta de energia, nas decisões de investimento em ampliação da capacidade de produção.

Só uma comissão independente, de caráter técnico, mas reunindo especialistas com visão política, à qual seja conferido, de direito e de fato, poder de investigar, amenizará esses impactos negativos. Sem uma resposta oficial organizada e crível, o apagão do dia 10 permanecerá como fator de instabilidade, dificultando o avanço da economia, mesmo que, na realidade, a oferta de energia não seja um empecilho.

Nos idos de 2001, a comissão, criada por decreto presidencial no mês de maio, apresentou sua conclusão em fins de julho. Coordenada pelo engenheiro Jerson Kelman, então presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), a comissão sepultou as explicações oficiais. A comissão apurou que o apagão não fora provocado apenas pela falta de chuvas e pelo crescimento do consumo, como insistia o governo, mas por insuficiência de investimentos, atrasos na obras de novas usinas e ineficácia na gestão intragovernamental do setor elétrico.

Uma releitura do

Documento

da comissão de 2001 permite constatar que, se há diferenças estruturais entre os apagões do início da década e o grande blecaute de novembro de 2009, algumas das situações então apontadas talvez sejam semelhantes. Para começar, lá como cá, os governos tentaram jogar a culpa na Mãe Natura – um acusando o regime de chuvas, outro recorrendo a raios e ventos. E também lá como cá estão presentes fatores como a falta de entrosamento dos órgãos oficiais envolvidos, problemas de gestão do sistema, atraso em obras e insuficiências nos investimentos (no caso atual não em geração de energia, mas em reforço e manutenção na transmissão).

Praticamente uma semana depois do apagão do dia 10 de novembro, o que se percebe é um esforço do governo para enterrar o assunto, sem as devidas explicações. Não se tem notícia da criação de nenhuma instância que centralize e coordene as investigações sobre as causas imediatas e as mais remotas do episódio.

O que se tem, do lado do governo, são declarações desencontradas, inconvincentes, espelho das acusações sem base técnica, lançadas por oposicionistas. Vicejam, no meio desse pântano inconclusivo, exercícios descompromissados de responsabilidade sobre a utilização de energias alternativas e sugestões de modelos de produção de energia que amenizam um problema – o efeito-dominó de um sistema altamente interligado –, mas criam outros – custos inviáveis ou poluição ambiental – talvez piores.

O blecaute de 2009, desculpem a metáfora, lançou luz sobre os atuais problemas do setor elétrico no Brasil. Mas, por enquanto, infelizmente, só tem produzido calor. É preocupante porque o apagão de explicações técnicas convincentes pode potencializar os efeitos adversos do apagão de energia.

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