As ameaças dos QEs

José Paulo Kupfer

20 de setembro de 2012 | 16h30

O Federal Reserve (Fed), o banco central americano, decidiu, depois de longa mastigação, deflagrar a terceira versão de “quantitative easing” – traduzido entre nós como “afrouxamento monetário”. Logo em seguida, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desceu a lenha na decisão americana e garantiu que o governo brasileiro não permitiria uma nova onda de valorização da nossa moeda, o já velho e bom real.

É de se pensar o que as pessoas não versadas em economia acham do fato e da reação. O que uma coisa tem a ver com a outra, não é mesmo? Por que o movimento de injetar dinheiro na economia americana afetaria a moeda brasileira?

Com o QE3, o Fed se compromete a comprar títulos representativos de dívidas e, nesse caso específico, de dívidas imobiliárias, num montante de até US$ 40 bilhões por mês, por tempo indeterminado. Significa que o governo americano dará dinheiro vivo em troca de papéis duvidosos e arriscados, podres em boa parte, que não encontram investidores privados ousados o suficiente para carregar a batata quente, mesmo se oferecidos a preços de banana.

A ideia é desafogar os devedores, cortar suas dívidas e ajudá-los, com isso, na arrumação dos orçamentos encalacrados. Desafogados os agora ex-devedores podem voltar ao mundo dos consumidores e, por que não?, dos futuros devedores. Esse movimento, é claro, colabora para movimentar a economia, melhorar empregos e a renda. Um dos objetivos dos QE e, mais ainda, do QE3 é tirar a economia americana do buraco.

Há, porém, por trás de todo QE – e também do novo QE3 – uma outra intenção, não declarada tão abertamente. Essa intenção é a de desvalorizar a moeda, no caso o dólar americano, e, assim, facilitar as exportações, despejando produtos “made in USA” (mesmo aqueles “assembled in China”) nos mercados externos. Já que o mercado interno está numa draga, uma boa saída é vender nos mercados dos outros, não é mesmo?

O movimento que se dá é o seguinte: toda vez que aumenta a quantidade de moeda em circulação, é óbvio e natural que seu valor, salvo condições excepcionais, sofra perdas. De fato, em condições normais, aumento no volume de moeda em circulação tende a resultar em inflação – que é, exatamente, o fenômeno que expressa perda de valor da moeda. O limite das expansões monetárias é dado pela alta de preços.

Situações inflacionárias se caracterizam pelo fato de que o dinheiro comprava ontem mais do que compra hoje e comprará amanhã. Ocorre que as condições atuais são tão anormais que a emissão na prática de dinheiro, promovida pelos QEs dos países em crise acentuada, não está fazendo nem cócegas na inflação.

Os países emergentes – e, principalmente, para os grandes emergentes, como o Brasil –, sem ter nada com isso, acabam sendo vítimas dos QEs.  Sofrem nos mercados externos para os quais exportam porque a competição, que já é fortíssima, fica ainda mais desigual. E sofrem nos seus próprios mercados porque o aumento da liquidez – isto é, de dinheiro em circulação – tende a vazar recursos, a custos baixos, para aplicação, com rendimentos atraentes, nos mercados emergentes.

O ingresso extraordinário de dólares nos mercados internos produz valorização das moedas locais. E aí é que vem sofrimento também no mercado interno. A valorização da moeda local barateia os custos de importação, abrindo espaços para produtos e serviços vindos do exterior, e acirrando a competição, também no mercado interno, para as empresas locais. Se os governos afetados não tomam providências para tentar evitar essa valorização – o que nem sempre é possível na proporção necessária –, a tendência é as empresas começarem a enfrentar dificuldades para vender.

Na volta do parafuso, em resumo, a contrapartida do aumento do emprego nos países que promovem QEs é o desemprego nos países receptores de bens, serviços e dólares. Não tem a menor graça.

 

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