As dores se confirmam

José Paulo Kupfer

27 de dezembro de 2011 | 10h41

Nos cenários básicos, em que não ocorrem rupturas, é possível encontrar uma razoável convergência em torno da hipótese de expansão modesta da atividade econômica nos Estados Unidos e um recuo moderado na economia chinesa. Os EUA, de acordo com as projeções, repetirão, em 2012, mais um ano de crescimento sem brilho, na vizinhança de 1,5%. A China, às voltas com os excessos dos últimos anos, recuará de 9% ao ano para algo como 7%.

Também há convergência em relação ao que deve ocorrer na Europa, mais precisamente na zona do euro, o tumultuado coração econômico e político da região. O cenário em que mais se aposta é de uma recessão moderada em 2012, entre 1% e 2%.

A economia mundial, nesse ambiente, apresentaria um crescimento inferior a 3%. Nessa estimativa está embutida uma expansão em torno de 5% para o conjunto das economias emergentes, que, de todo modo, continuaria a puxar o crescimento global, se bem que com menor intensidade.

Consequência esperada de um crescimento morno com risco de se tornar fraco, o comércio internacional também deverá andar em velocidade mais reduzida. Esforços exportadores mais ativos se verão limitados por demanda menos intensa e barreiras protecionistas. Nas projeções, o crescimento do fluxo de comércio internacional, que era de mais de 8% anuais antes da crise de 2008, está agora reduzido a menos de 5%.

Parte desse recuo se dará no mercado de commodities. Os freios no nível de atividades na China, com destaque para os segmentos de infraestrutura e construção civil, formam a base de sustentação de tais previsões. Cortes em torno de 10% nos índices de preços de commodities agrícolas e outro tanto nas minerais estão no visor dos analistas. No caso do petróleo, a expectativa é de cotações estabilizadas, embora acima de US$ 100 o barril.

Com seu variado leque de obstáculos institucionais, reforçados pelas limitações de uma moeda comum, a zona do euro, na Europa, navega num canal estreito de águas agitadas. Não parece existir, fora da ruptura da moeda comum – hipótese que tem subido na bolsa de apostas, mas ainda é um azarão -, saída da crise que não expresse um quadro de recessão nos países mais vulneráveis. E de condenação dos menos vulneráveis a um período de crescimento abaixo do potencial.

Não é, concorda-se, nada animador. Mas o que seria de se esperar? Trata-se, na verdade, de um quadro previsível, reflexo de um inevitável processo de desalavancagem, que está em curso, com seus conhecidos e tortuosos movimentos. Nada, por sinal, muito diferente, em essência, do que tem ocorrido na história dos estouros de bolhas financeiras, pelo menos desde a grande crise de 1929. Como nos casos anteriores, este de agora também está confirmando que será demorado e dolorido.

Normalmente, entre o início da limpeza do terreno contaminado por ativos podres, a arrumação da casa e o retorno a um tipo de crescimento mais sustentável decorrem no mínimo cinco anos. Se essa história se repetir, o aperto dos cintos não terminará antes de 2015. Tudo indica que a traumática lição da quebra do Lehman Brothers foi aprendida e um novo colapso, repetição de 2009, quando boa parte das economias mundo afora desceu ao fundo do poço, parece afastada. Mas, de qualquer modo, será difícil escapar de uma fase de longa contração em câmera lenta.

As projeções conhecidas para 2013 reforçam a possibilidade de recuperação lenta ou, simplesmente, de estagnação. Embora o viés da expansão econômica estimada seja um pouco mais favorável, os números continuariam tímidos, principalmente se comparados com a evolução econômica anterior a 2007. O crescimento global permaneceria em torno de 3%, sem mudanças significativas no ritmo de atividades nos Estados Unidos e na China, enquanto a Europa ainda enfrentaria mais um ano – provavelmente não o último – de estagnação.

Não seria realista, no fim das contas, imaginar um mundo econômico risonho, nas circunstâncias em que se encontram as tradicionais locomotivas do crescimento global. Menos realista ainda seria acreditar que os países emergentes teriam fôlego armazenado para carregar nas costas o crescimento econômico global no provavelmente longo período requerido para completar a desalavancagem.

O fato é que as dores do processo eram previsíveis e elas, simplesmente, estão se confirmando.

 

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