As razões da ata

José Paulo Kupfer

27 de outubro de 2011 | 19h38

A ata da última reunião do Copom, realizada em 18 e 19 de outubro, saiu numa hora imprópria. Quase uma réplica bem pouco ampliada e quase nada revista da ata anterior, o documento da reunião de outubro explica o novo e idêntico corte da taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual com ênfase nas “incertezas acima do usual” na economia internacional, notadamente na zona do euro. E reafirma a aposta nos impactos deflacionistas de uma prolongada etapa de baixo crescimento nas economias maduras.

Acontece que, na véspera da divulgação da ata, os líderes da Europa conseguiram convergir para a necessidade de reforçar o fundo de estabilidade europeu e, mais importante, fecharam um acordo, envolvendo bancos credores, para riscar metade da dívida soberana grega com o setor privado – um corte de 100 bilhões de euros. O acordo alcançado, depois de meses de hesitação e deterioração das condições econômicas, produziu, nesta quinta-feira, um daqueles momentos já conhecidos de euforia nos mercados.

Também nos Estados Unidos, as notícias do dia foram razoáveis. Saiu a evolução do PIB, no terceiro trimestre, e o ritmo de atividades, embora abaixo das previsões, mostrou uma alta de 2,5% anualizados (elevação 0,062%, em relação ao trimestre anterior). Não é muita coisa, não mexeu com o desemprego, mas, pelo menos, é melhor do que os números dos períodos anteriores.

Tudo isso serviu para que pipocassem afirmações de otimismo na recuperação da economia global e, em conseqüência, críticas às apostas do BC brasileiro na hipótese de que a economia internacional não sairia tão cedo dos buracos em que se encontra.

Seria recomendável, no entanto, um pouco de calma nas avaliações. Se for como das outras vezes, pode-se imaginar que as fortes altas desta quinta-feira darão lugar a movimentos de acomodação e ajuste, nos próximos dias. Para começar, o plano concreto que permitirá operar esse desconto sem lançar os bancos num torvelinho e evitar contágios para outras economias enfraquecidas da região ainda não foi apresentado.

Entre o anúncio do acordo e a sua implementação muita água ainda vai rolar. Sem falar que, mesmo que funcione para a Grécia, ainda terá de ser feito um enorme esforço para que funcione para as outras economias encalacradas. No fim das contas, ainda está longe o horizonte da recuperação sustentada, que exigirá uma engenharia política de envergadura – e repleto de riscos – para avançar na integração regional.

O próprio presidente francês, Nicolas Sarkovy, está prevendo crescimento de apenas 1% para a economia francesa em 2012. É realista projetar, mesmo que venha a ser feito, com êxito, o que tiver de ser feito – uma hipótese nada segura –, longo período de baixo crescimento e ambiente deflacionista.

Resumindo, o relativo pessimismo do BC brasileiro quanto a uma recuperação rápida da economia global continua fazendo sentido. Nos últimos meses, as coisas só pioraram. E, mesmo com sinais mais animadores, vai demorar para melhorarem..

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