As rodas da Rodada

José Paulo Kupfer

29 de julho de 2008 | 08h34

O tema parece uma complicação só – além de uma chatura sem fim –, mas não é assim tão difícil entender a essência do problema na infindável mesa de negociações da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio (OMC), ora em fase tida como decisiva – e em tons pessimistas –, em Genebra, na Suíça. Basta comparar as capas dos jornais ou das páginas de abertura de seus sites na internet, no Brasil (e na Argentina) e nos EUA ou Europa: a cobertura, por aqui, é intensiva e salta aos olhos; lá é preciso dar duro para achar as notícias. Enquanto, nas economias ricas, parecem não estar nem aí com a coisa, a impressão entre nós, muitas vezes, é de que se trata quase de uma questão de vida ou morte.

Instituídas com o objetivo de obter consensos na liberalização do comércio internacional, as rodadas de negociação da OMC obedecem aos rituais e jogos de cena diplomáticos. Mas não escondem o desequilíbrio de forças e dos interesses em causa. Enquanto os países menos industrializados, ditos emergentes, buscam arrancar das economias mais avançadas limites mais baixos aos subsídios a seus agricultores, os ricos jogam bruto contra a proteção tarifária à importação de manufaturados pelos emergentes.

É briga por levar vantagem, mas com luvas de pelica. Quando a coisa aperta, vale tudo. Por exemplo, ofender-se, como encenou a representante americana, que levantou a condição de filha de sobreviventes de campos de concentração nazista, com uma frase como a do chanceler brasileiro, Celso Amorim, sobre mentiras repetidas que se tornam verdades, atribuída a Goebbels, o maligno mentor da propaganda de Hitler. Puro blefe de maus atores. Pior que isso é quando os ricos resolvem sacar de seu baú de maldades a idéia de forçar os países emergentes a abrir setores e mercados estratégicos e de segurança nacional a investimentos diretos estrangeiros.

Centrada na idéia da liberalização do comércio de bens, a Rodada Doha, por conta das diferenças entre as partes, também tem cedido espaços a disputas e lances na área de serviços. E avança até mesmo na ultra-sensível questão da abertura do mercado de trabalho – um ponto fora do horizonte e que, ao contrário, tem retrocedido na prática dos países ricos.

Estados Unidos e União Européia, por exemplo, acenam com a cenoura do aumento do número de vistos temporários de trabalho para especialistas em softwares e tecnologia de informação. Pretendem, com isso, amolecer a posição da Índia, grande fornecedora de mão-de-obra qualificada nesses campos, que não aceita nenhum acordo se não for estabelecido um mecanismo que permita a sobretaxação de importações agrícolas, em situações especiais.

A Rodada Doha teve início em 2001 e esta é sua quinta reunião deliberativa de chanceleres. As anteriores, em Cancún, Genebra, Paris e Hong Kong deram em quase nada. Esta, de novo em Genebra, surpreendeu com a adesão de países como o Brasil a uma proposta de limitar os subsídios americanos a seus agricultores a US$ 14,5 bilhões anuais.

O teto sugerido desde sempre pelos emergentes era de US$ 13 bilhões, mas os americanos ficavam pé em US$ 15 bilhões. Parece uma discussão por “peanuts”, como diriam os americanos – e é. Com um detalhe: os EUA subsidiam sua agricultura com pelo menos o dobro do teto que dizem aceitar na OMC. Resta saber o que levou o Brasil a aceitar correr o risco de ser acusado de traidor pelos vizinhos argentinos, para nada de prático, pois China e Índia mantêm-se irredutíveis.

Em meio a cenas explícitas de diplomacia, ao longo do tempo, no âmbito global, os países vão fazendo acordos bilaterais ou bloco a bloco, deixando aos acordos da OMC o papel de guarda-chuva genérico do comércio internacional. No fim das contas, é melhor tê-los do que não tê-los. Mas todos sabem que, mesmo sem os acordos globais, o mundo continuará girando e a lusitana rodando.

O que se vê hoje, em Genebra, é uma história antiga e recorrente. Há 35 anos, quando eu ainda começava na imprensa de economia, entrevistei, no imponente prédio do ministério da Fazenda, no Rio, uma já veterana negociadora brasileira, com assento nos comitês técnicos do então Acordo Geral de Comércio e Tarifas (GATT, na sigla em inglês), antecessor da OMC. Ela me resumiu essas negociações de um jeito que jamais esqueci. “Meu filho”, explicou ao jovem repórter, não escondendo o ar de enfado. “Essas negociações são como cantar uma mulher sem graça por obrigação ou compaixão: apesar dos salamaleques, no fundo, ninguém quer levá-la para a cama”.

Ontem, em Genebra, as cantadas continuaram, mas, como de praxe, ninguém se dispôs a consumá-las. Já que não há a expressão “inflexibilidade” no dicionário de ninguém – só no dos outros –, as conversas continuam e os impasses se arrastam. Restam agora duas possibilidades: algum acordo provisório no meio do caminho entre os pleitos de lado a lado ou um fracasso relativo, com a marcação de uma nova rodada de discussões, daqui a um tempo.

Tendências: