As voltas que o mundo dá

José Paulo Kupfer

18 de abril de 2011 | 18h12

As manchetes dos principais portais de notícias do mundo nesta segunda-feira parecem surreais. Quem poderia imaginar que, um dia, uma agência de classificação de riscos, no caso a Standard & Poor’s, poderia diminuir a nota dos Estados Unidos?

Em linguagem técnica, os analistas dessa tão prestigiada quanto polêmica empresa mudaram a perspectiva para o rating do governo americano de estável para negativa. Em língua de gente, significa dizer que essa agência, em tese especializada em avaliar a capacidade de pagamento de emissores de dívida (sejam governos ou empresas), está alertando o mercado que a situação fiscal dos Estados Unidos inspira cuidados no longo prazo.

No limite, a S&P, como é conhecida, diz que os EUA, ainda considerados o porto-seguro do mercado financeiro mundial, não são assim tão seguros. Ou ao menos não são confiáveis hoje como eram num passado nem tão distante. Há dez anos, quando Bill Clinton deixou o governo, em 2001, o Tesouro americano estava recomprando dívida. Ou seja, a quantidade de títulos públicos do país em circulação no mundo diminuía ano a ano. E a confiança fazia caminho oposto: só crescia.

Bush filho assumiu e, de cara, lançou mão de estímulos fiscais para tirar a economia da recessão em que se encontrava. A política de aumento de gastos públicos e frouxidão monetária foi amplificada em 2008, na crise que aquela política ajudou a produzir. Só com muito dinheiro do governo – põe dinheiro nisso – os EUA conseguiram evitar que a crise fosse tão grave como a de 1929. Praticamente sem alternativa, Barack Obama manteve e ampliou mais um pouco a política frouxa que herdou.

Vá lá que a S&P, bem como suas principais concorrentes (Moody’s e Fitch), ficou com credibilidade para lá de arranhada depois de comer bola na crise asiática dos anos 90 e, principalmente, na própria crise do subprime americano em 2008. Mas, para o bem ou para o mal, suas avaliações são acompanhadas de perto pelos investidores.

Ver a nota da dívida americana rebaixada nem em histórias de ficção era considerado possível. Mas o mundo econômico, desde a quebra do Lehman Brothers, tem dando voltas. Mais do que voltas, tem dado cambalhotas.

A mensagem é clara e socrática: tudo o que sabemos da economia internacional hoje é que nada sabemos

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Quem também saiu da crise de 2008 com a imagem abalada foi o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Alan Greenspan. E não é que o ‘maestro’, também ontem, alertou para uma possível crise fiscal nos EUA? Disse ele: “Esta crise é tão iminente e tão difícil que eu penso que precisamos deixar que todos os chamados ‘cortes de impostos do Bush’ expirem. É um número muito grande”, disse ele, durante um programa de TV.

Em muitos aspectos, o mundo não é mais o mesmo. Duvidar da capacidade de pagamento dos EUA é um deles. Mas, em outros, tudo continua como sempre foi: gente que, como Greenspan, fez lambança quando no poder, não se furta a dar palpite quando volta para a iniciativa privada.

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