Ata do Copom: à espera de turbulências pontuais

José Paulo Kupfer

07 Agosto 2018 | 17h23

A linguagem peculiar do Comitê de Política Monetária (Copom), o “coponês”, ficou menos hermética e mais acessível aos não iniciados, depois da chegada de Ilan Goldfajn à presidência do Banco Central (BC), em maio de 2016. Ainda assim mantém um grau razoável de expressões que pedem tradução no idioma corrente. A ata da reunião de agosto, divulgada nesta terça-feira, que decidiu não alterar a taxa básica de juros, fixada em 6,5% ao ano, e sinalizou, no comunicado, sua manutenção por algum tempo, é um bom exemplo disso.

Em resumo, a interpretação que a própria ata pretende transmitir é a de que, como descrito no comunicado, o BC se sente confortável para manter os juros básicos inalterados por um bom tempo, mas não é o caso — nem seria necessário —, diante das incertezas com o que pode sair das urnas em outubro e da evolução igualmente incerta do quadro internacional, assumir oficialmente esse roteiro. De seus 35 parágrafos, o mais relevante a ser extraído é a perspectiva de que, daqui até a definição do novo presidente, a volatilidade tende a aumentar, marcadamente no mercado cambial, mas as possíveis turbulências tendem a ser pontuais.

As esperadas pressões nas cotações do dólar poderiam mexer com as expectativas de inflação e, assim, aumentaria a tentação de acionar a política monetária para conter esses movimentos. Só que não. Entre outros, por um motivo repetido algumas vezes na ata desta terça-feira: a ociosidade predominante na economia. A atividade se recupera do choque de oferta produzido pela greve dos caminhoneiros, que paralisou parte da produção e dos serviços, no último terço do mês de maio, mas essa recuperação é fraca. O “V” registrado na atividade econômica, entre o período da greve e logo na sequência apresentaria uma perna da direita mais curta.

Não há, por isso, espaço para impulsos inflacionários, mesmo com esperadas oscilações mais fortes do dólar. O que há, na verdade, reconhecido na própria ata, é um risco baixista para a inflação, tal o grau de ociosidade em que se move a economia. Do lado altista, os riscos para os ativos financeiros — ações na Bolsa, câmbio — derivariam principalmente da marcha das pesquisas eleitorais, numa razão inversa da marca reformista dos candidatos. Alguém mais reformista em alta nas pesquisas, ativos em baixa — e vice-versa.

Não foi por coincidência que a ata menciona mais vezes do que o costumeiro a necessidade de reformas — leia-se, reforma fiscal — para garantir juros básicos baixos. Também não é por outra razão que os analistas em geral não esperam altas nas taxas de juros pelo menos antes de meados de 2019, mas entendem que é esse prognóstico depende da consistência do programa de ajuste fiscal do presidente eleito e do tamanho do capital político à sua disposição para executar tal programa. Um “populista” alçado ao Planalto deflagraria ações antecipadas de alta nos juros básicos.