Ata do Copom decepciona os crentes do PIB potencial

José Paulo Kupfer

17 de dezembro de 2009 | 17h32

Hoje, quinta-feira subsequente à reunião do Copom que, na quarta-feira da semana passada, manteve os juros básicos em 8,75% ao ano, saiu a ata da reunião. É sempre um momento de alvoroço no mercado, com os oráculos atentos ao comunicado e às mensagens nele embutidas. Um ritual.

O ritual não se restringe à divulgação da ata nem aos termos em que ela é escrita. Interpretar para onde o BC está mirando, na definição da política monetária para os próximos tempos, também faz parte do ritual. Redigido em legítimo coponês, a ata do Copom parece feita sob medida para interpretações.

No mercado, doze em cada dez analistas esperam um aumento de juros em 2010, por conta do projetado aquecimento da economia. Ninguém discute se ocorrerá, mas quando e em que proporção o BC puxará os juros. Contudo, informam os oráculos das emanações do Copom, a ata não crava uma elevação dos juros – pelo menos no começo de 2010.

Foi o suficiente para produzir uma redução nos juros futuros, contratados para o começo de 2010. Mas a decepção não chegou ao ponto de derrubar a fé do mercado numa subida da taxa básica ao longo do ano que vem.

Essa fé numa alta de juros ante uma alta mais forte da economia se ampara num santo. O santo, que não é consenso em todas as seitas econômicas, atende pelo nome genérico de PIB (ou produto) potencial. Calculado pelos economistas com base na capacidade de produção instalada na economia, o PIB potencial é, tecnicamente, uma taxa de ocupação da capacidade instalada que não acelera a inflação.

Encontrar taxas naturais de equilíbrio é uma antiga obsessão de um tipo de economista que acredita na ideia de que um modelo econômico abstrato, expresso por sistemas de equações, possa ser encarregado de explicar a dinâmica da economia. Frequentemente, no entanto, a realidade impõe decepções aos crentes. Mas a crença persiste.

A convicção de que os juros deverão subir em algum momento de 2010, independentemente de possíveis limitações políticas, como o fato de que o próximo é um ano eleitoral e, quando mais perto da eleição, mais difícil seria adotar medidas de contenção da atividade, tem tudo a ver com isso.

Há convergência em torno de projeções para o crescimento da economia em 2010 acima de 5%, podendo, segundo muitos, passar de 6%. Como os cálculos indicam um produto potencial pouco acima de 4%, não chegando a 5%, a presunção é a de que o aquecimento da demanda provocará fricções na oferta, das quais resultariam pressões inflacionárias.

A economia é por natureza dinâmica, mas os modelos que levam à determinação dessa taxa de ocupação da capacidade que não estimula a inflação, nem tanto. A variável chave é o investimento, que aumentará a capacidade de produção e eliminará a fricção entre demanda e oferta. Este é função, entre outras variáveis, do próprio crescimento. O problema é que é muito difícil captar o momento em que as decisões de investimento são tomadas e o tempo de maturação deles, para saber, no fim das contas, quando a capacidade instalada estará ampliada. Ou não.

No segundo governo FHC e nos primeiros tempos de Lula, era voz corrente, entre os economistas crentes na dominância do produto potencial, que um crescimento anual acima de 2% ou 3% resultaria em pressões inflacionárias. O Copom, de fato, produziu no período, uma política monetária adequada a essa convicção, com os resultados – negativos – conhecidos.

Quando, já em meio ao governo Lula, com estímulos ao mercado interno começando a mostrar resultados, a economia passou a crescer mais forte, houve quem quase enfartasse com os riscos de perda do controle da inflação. Nada disso aconteceu e, quando foram ver, o famoso produto potencial tinha escalado, entre 2004 e 2008, para cerca de 5%.

E se a história se repetir em 2010? A política monetária voltará a operar como o cachorro que morde o próprio rabo? 

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Tratei do assunto deste texto em comentário na TV Estadão. O link para o vídeo da conversa com a colega Letícia Bragaglia é o seguinte:

http://tv.estadao.com.br/videos,ENTENDA-A-TRAJETORIA-DA-TAXA-DE-JUROS,81724,0,0.htm

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