Ata do Copom sugere adiar início do corte nos juros

José Paulo Kupfer

05 de maio de 2016 | 13h34

O que interessa mesmo, depois de interpretadas as quatro mil palavras da ata da reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta-feira, é a conclusão de que seria mais adequado esticar um pouco o possível início de um novo ciclo de cortes na taxa básica de juros e, ao mesmo tempo, moderar o ritmo de recuo da taxa Selic. Antes dessa ata, analistas previam o início das reduções na taxa Selic em julho e mesmo já em junho, com os juros recuando, em relação aos 14,25% ao ano do momento, pelo menos dois pontos porcentuais, para 12,25%, até o fim do ano.

Essas previsões levavam em conta as condições atualizadas da economia — taxa câmbio mais contida, recessão prolongada e sem sinais de reversão em prazo mais curto, fim do ajuste nos preços administrados antes represados, entre outros. Mas os diretores do Banco Central, nos termos da ata que assinaram, se declararam mais pessimistas com a evolução do quadro fiscal, elemento chave para definir movimentos de descompressão na política de juros.

Esse pode ser considerado o ponto central desta ata. Diferentemente de documentos anteriores, nos quais o Copom avaliava a política fiscal em situação de “neutralidade” e aventava a hipótese de sua “migração para a zona de contenção”, os diretores do BC desta vez passaram a entender que o “balanço do setor público encontra-se agora em zona expansionista”. Assim, na opinião do Copom, seria arriscado promover cortes nos juros básicos antes de uma reversão consistente no quadro fiscal.

Para não deixar dúvida sobre essa posição, o Copom registrou, na ata, uma advertência a respeito das interrelações entre a política fiscal e a política de juros, no combate à inflação. Está registrado no pé do parágrafo 25: “(…) o Comitê destaca que a literatura e as melhores práticas internacionais recomendam um desenho de política fiscal consistente e sustentável, de modo a permitir que as ações de política monetária sejam plenamente transmitidas aos preços.”

Para reforçar esse entendimento, a ata é explícita em ressaltar que “o cenário central não permite trabalhar com a hipótese de flexibilização das condições monetárias”. Traduzindo do coponês, o BC — pelo menos a sua diretoria atual —, apesar do recuo previsto para a inflação no curto prazo, não imagina ser o caso de tão cedo dar início a um ciclo de cortes na taxa básica. Mas os analistas continuam enxergando espaço para que os juros comecem a cair, talvez não mais em julho — e muito menos em junho —, mas a partir de agosto ou pelo menos ainda em 2016.

A decisão, manda a lógica, ficará para a nova direção do BC indicada pelo provável futuro ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Antecipar, no momento, os movimentos do novo BC, porém, não será tarefa fácil. Até porque, segundo as últimas especulações, Meirelles balança entre indicar um “pombo” ou um “falcão” para sua presidência.