Aula de eficiência

José Paulo Kupfer

27 de dezembro de 2007 | 18h15

– Bom dia, gostaria de contratar o serviço de banda larga da sua operadora.

– Por favor, seu nome, identidade, CPF, data de nascimento, endereço e número do telefone, com DDD.

– Você sabe quanto tempo leva para instalar?

– Senhor, o senhor quer contratar o serviço ou mudar a velocidade do já existente?

– Como já existente? Ainda não contratei nada.

– Bem, consta aqui que já há Speedy instalado neste número.

– Mas eu não comprei nada. Até tentei, é verdade, umas semanas atrás, mas foi tanta confusão com o prazo de entrega do kit de instalação que desisti e preferi esperar um pouco. Que história é essa de que já comprei?

– Senhor, pode me repetir o número de telefone? Este que o senhor passou está em nome de Astrid…

– Minha filha, confirmo que o número é meu. Não conheço nenhuma Astrid. Não estou entendendo…

– Um momento que vou verificar.

O telefone emudece. Dez minutos depois continua mudo. Desligo e chamo a Telefônica novamente. Um segundo atendente se identifica:

– Bom dia, em que posso ajudá-lo?

– Gostaria de contratar um Speedy.

– Por favor, seu nome, identidade, CPF, data de nascimento, endereço e número de telefone, com DDD.

– Seguinte, liguei há poucos minutos e me disseram que esse número não era meu. Você pode me confirmar em nome de quem está este número?

– Senhor, não podemos fornecer esta informação.

– Pera aí, confirma aí que o telefone está ou não no meu nome, ok?

– Sim, está no seu nome. Mas, senhor, infelizmente, não há no momento disponibilidade para o Speedy no endereço do telefone.

– Como não? Faz menos de dez dias tentei contratar um Speedy e havia disponibilidade. O que houve?

– Bem senhor, é que há cotas por localidade e, caso os pedidos sejam muitos, as cotas ficam preenchidas. É preciso esperar uma nova liberação. Por favor, entre em contato em duas semanas.

Desligo, mas diante do desencontro generalizado de informações, resolvo tentar mais uma vez, em seguida. Vai que foi mais uma confusão. Fala um terceiro atendente:

– Bom dia senhor, em que posso ajudá-lo?

– Gostaria de contratar um Speedy.

– Por favor, seu nome, identidade, CPF, data de nascimento, endereço e número do telefone, com DDD.

– Há disponibilidade nesta linha?

– Sim, senhor, não há qualquer problema.

A atendente passa então e desfiar os planos e os pacotes oferecidos, preços e promoções. Tenta vender vários serviços complementares, adicionais e nem tanto.

– Senhor, por favor anote o login e a senha da instalação. Vou passar o senhor para a nossa auditoria, para completar o processo.

– Pode falar o login e a senha. Vão me telefonar dessa auditoria? Quando?

– Não, senhor, vou estar transferindo para lá agora. Um momento, por favor.

O telefone chama e um quarto atendente entra na linha:

– Bom dia, senhor, por favor, seu nome, identidade, CPF, data de nascimento, endereço e número do telefone, com DDD.

– Minha filha, não acredito, é a quarta vez que repito a ladainha.

– Preciso dos dados para dar prosseguimento, senhor.

A atendente passa então a ler, num jeito de quem lê uma composição escolar, um longo contrato de prestação de serviços, com clausula de fidelidade, custos para isso, custos para aquilo etc e tal. Impossível concentrar a atenção em tantos detalhes por tanto tempo e decidir assim na lata.

– OK, ok, minha filha, vamos em frente.

– Senhor, por favor, qual o Windows do seu micro?

– Olha, já disse para sua colega que não sei, usamos notebooks, pode ser XP, Vista, qualquer coisa. Mas garanto que as configurações agüentam.

– Certo, senhor, o senhor tem celular da Vivo?

– Não.

– Há uma promoção do Speedy com a Vivo… O senhor quer ser encaminhado para a Vivo para transferir seu celular para a Vivo?

– Não! – falo com a voz já meio alterada.

– Senhor, por favor, anote o login e a senha.

– Já tenho.

– Certo, senhor. Por favor, anote o número do protocolo.

– Está anotado.

– Em até sete dias úteis chegará pelo correio um kit de instalação no endereço do telefone. Parabéns por adquirir o Speedy. Caso, na hora da instalação, for verificada alguma impossibilidade técnica, os equipamentos serão retirados pela Telefônica, sem custos para o senhor. Boas Festas!

Desligo e olho o relógio. Foi uma luta em quatro rounds, num total de 40 minutos. Mas, mesmo com um número de protocolo anotado, não tenho certeza de que vai dar certo. Saio do ring cambaleando e desorientado.

O que consola é que os serviços desse tipo estão todos a cargo de empresas privadas, em geral gigantes multinacionais. Por isso, é total a garantia, como se vê, de eficiência e qualidade.

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