Baixo crescimento contra a inflação

José Paulo Kupfer

27 de junho de 2014 | 18h22

A inflação, em 12 meses, vai subir e ultrapassar o teto da meta, mas fiquem frios. A política monetária está em ação, o ritmo de crescimento econômico já se encontra abaixo do potencial da economia e quando isso acontece as pressões inflacionárias se dissolvem. Por isso, acreditem, a inflação acabará convergindo para o centro da meta, ainda que somente no primeiro semestre de 2016. Esta é, em resumo, a mensagem do Relatório de Inflação do segundo trimestre, divulgado ontem pelo Banco Central.

Definir o “produto potencial” de uma economia é sempre um exercício sujeito às chuvas e trovoadas dos indicadores, como este, não observáveis, mas estimados com base em premissas e hipóteses derivadas de teorias. De todo modo, neste momento, em que se acumulam baixo investimento, baixa poupança e expectativas deterioradas de expansão econômica, é mais fácil ocorrer o imaginado pelo BC. Até porque nada garante que sua previsão de crescimento para 2014, agora em 1,6% e ainda acima das estimativas do mercado, não venha a ser revista mais para baixo.

Consequência prática dessa situação, para efeitos da política de juros, é que, apesar da alta de preços no curto prazo – e do aumento da probabilidade de que a inflação feche 2014 acima do teto da meta –, novas elevações da taxa Selic seriam desnecessárias e apenas contribuiriam para derrubar ainda mais uma economia que já se arrasta. Além do mais, de acordo com o BC, a prevista manutenção da taxa de câmbio em níveis valorizados, pelo menos até o fim do ano, é um fator adicional de alívio nos índices de inflação.

O BC deu a entender que agora aposta no já instalado baixo crescimento para controlar a inflação. Por isso, depois do Relatório de Inflação de ontem, a discussão entre os analistas deverá se concentrará na data em que o BC terá de voltar a elevar os juros… em 2015.

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