Balança, mas não cai. Até quando?

José Paulo Kupfer

18 de março de 2008 | 19h59

O Federal Reserve fez mais um corte, desta vez de 0,75 ponto porcentual, nos juros de referência americanos, reduzindo-os a 2,25%. Seja com base na inflação corrente ou na projetada para o ano, isso significa que a taxa básica agora é negativa – isto é, o custo básico do dinheiro, na poderosa economia americana, está abaixo de zero.

Embora esperasse um corte ainda maior, entre 1% e 1,25%, o mercado reagiu bem, com altas nas bolsas de todo o mundo. Colaborou para a virada o resultado trimestral de dois bancões de investimento – Lehman Brothers e Goldman Sachs -, que vieram ruins, mas não tanto quanto se imaginava.

O alívio registrado nos pregões de hoje está, porém, longe de indicar uma reversão de tendências negativas. Ninguém aposta em que o pior já tenha passado e, na verdade, a sensação é de que o fundo do poço ainda está longe. Há dúvidas em relação à eficácia do remédio ministrado pelo Fed.

Injetar recursos ou, o que dá no mesmo, aliviar o custo do dinheiro, é uma saída clássica para crises de liquidez. O problema é que, antes de se caracterizar como tal, a crise atual se caracteriza como uma crise de confiança. Não é que, exatamente, falte dinheiro na praça. O que falta é confiança aos potenciais emprestadores de que receberão de volta o que vierem a emprestar.

Se for este, de fato, o diagnóstico correto, é recomendável cuidar o estômago porque emoções fortes ainda virão. Como afirmou Alan Greenspan, o ex-todo poderoso do Fed que ajudou a produzir a confusão, as turbulências deverão prosseguir até que as perdas com os créditos imobiliários de alto risco e as demais perdas deles derivadas tenham sido conhecidas. Só para dar uma idéia do tamanho do buraco que ainda não apareceu: estima-se que oito milhões de casas hipotecadas já estão valendo menos do que as próprias hipotecas. Detalhe: os preços dos imóveis, de acordo com os analistas do setor, ainda não chegaram ao piso.

De todo modo, começam a aparecer sinais de que a estratégia de cortar os juros de referência para animar mercados e a economia está batendo no teto. Preocupações crescentes com os índices de inflação fizeram com que a decisão do Fed de hoje não fosse unânime.

As perspectivas de que a maior economia do mundo vá curtir uma etapa de contração do crescimento com inflação crescente vão ficando cada vez mais nítidas na linha do horizonte.

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