Banco do Brasil: tapa na cara do oligopólio bancário

José Paulo Kupfer

14 de agosto de 2009 | 10h41

A estratégia do governo Lula de elevar a oferta de crédito dos bancos públicos na marra, depois do agravamento da crise global, pode ter um significado histórico. Se o tempo comprovar que foi tão acertada quanto parece ter sido neste primeiro momento, deixará claro que os bancos privados, montados num oligopólio clássico, preferem, como é típico dos oligopólios clássicos, lucrar mais vendendo menos a preços mais elevados.

O resultado do Banco do Brasil no segundo trimestre e no primeiro semestre como um todo, agora divulgado, é um tapa na cara do oligopólio e nos argumentos dos bancos privados para manter o mais alto spread do mundo. O BB reassumiu a liderança do ranking dos maiores bancos do País por ativos justamente fazendo o que se espera que um banco faça – e seus concorrentes privados não fazem: emprestando dinheiro. Lucros recordes menos em razão de juros altos e mais por conta de uma carteira de empréstimos abarrotada, esta a receita óbvia, mas desprezada no Brasil, de sucesso de um banco, agora aplicada pelo BB.
 
Claro que já apareceram os advogados dos bancos privados, insinuando, como é de praxe, cenários catastróficos para o BB quando a inadimplência – que dão como “inevitável” – corroerá os ganhos de hoje e obrigará o Tesouro Nacional a, mais uma vez, capitalizar o BB. Reforçam o argumento com a longa história de capitalizações de bancos públicos com dinheiro do contribuinte, por conta de monumentais calotes.
 
Há, não se pode negar, uma base no argumento. É antiga a história, no Brasil, da apropriação de recursos públicos pelo setor privado – e um dos canais dessa transferência sempre foi, justamente, o calote em bancos públicos, principalmente por grupos de pressão com representação no Congresso. Mas o argumento – no fundo um mantra repetido no automático – é, no mínimo, preguiçoso.

O cenário insinuado é algo que parece longe da realidade dos tempos atuais. Já se vão mais de dez anos da última grande sangria, ocorrida em 1995, quando o governo FHC foi obrigado a destinar R$ 8 bilhões para salvar o BB. A bem da verdade, FHC não só saneou o banco que recebeu quebrado e escapou dos conselhos de membros destacados de sua equipe econômica para privatizá-lo. Promoveu uma exitosa reestruturação que, até agora, garantiu-lhe saúde.

É certo que, de lá até meados do ano passado, inclusive no governo Lula, o BB não atuou exatamente como banco público, visto que operou visando, prioritariamente, a rentabilidade. Bancos públicos, imagina-se, devem atuar em linha com as diretrizes da política econômica – valendo-se, inclusive, do menor custo de seu funding –, garantindo rentabilidade suficiente para sua sustentação no tempo.

Da eclosão da crise global para cá, no entanto, o BB assumiu essa função e, por enquanto, o resultado está superando as melhores expectativas. Mesmo com provisões acima do exigido pelo Banco Central, a rentabilidade é recorde e a participação no crédito total (juntamente com a Caixa Econômica Federal) saltou de 34% para 39%, tomando fatias do setor privado.

É cedo, sem dúvida, para cantar vitória – a política de ampliação do crédito com taxas mais baixas é recente e ainda não teve de ser confrontada com o vencimento dos contratos. Mas ninguém pode duvidar que os bancos públicos viraram o primeiro tempo do jogo aplicando uma goleada na concorrência. E encurralando o oligopólio dos bancos privados em seu próprio campo.

 

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