BC e Fazenda em direções opostas

José Paulo Kupfer

13 de março de 2008 | 16h13

Abriu-se uma crise, ainda silenciosa e não declarada, entre o Banco Central e a área econômica do governo, na condução da economia. Se os dois lados insistirem em fazer o que prometem, vai dar um puxa-e-estica muito fora de hora e para lá de prejudicial ao bom desempenho da política econômica. É preocupante.

Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou medidas fiscais e administrativas com o objetivo de evitar uma valorização ainda mais acentuada do real. Independentemente da provável baixa eficácia das medidas, o movimento de Mantega passa o sinal claro de que o governo não quer assistir, nem ficará passivo diante da super-valorização do real.

Hoje, com a publicação da ata da última reunião do Copom, o BC informa que está se preparando para aumentar os juros – o que, no regime de câmbio flutuante, ainda que non troppo, como é o câmbio flutuante no Brasil, significa apontar para mais valorização da moeda.

Esse tipo de dissensão entre a área econômica e a área monetária do governo é mais comum do que exceção entre nós e explica um pouco o estilo conturbado característico da evolução econômica do País. Já era assim nos anos 50 e seria assim nas próximas seis décadas. Tal situação, de tão repetida, inspirou o ex-ministro Roberto Campos na formulação da primeira de uma série antológica de leis do comportamento “secreto” da economia brasileira.

Percebendo que a economia brasileira não obedecia às leis econômicas conhecidas, Campos concebeu, com fina ironia, um conjunto de “leis” específicas. Contou ele, num artigo clássico, publicado na antiga revista “Senhor”, em março de 1961, sob o título “Uma reformulação das Leis do Kafka”, divertir-se, em conjunto com Kafka (“não o Franz, mas o Alexandre, que admite vagamente ter remoto parentesco com o escritor”, escreve Campos, a respeito do economista austríaco que veio para cá fugindo do nazismo e representou o Brasil no FMI por anos a fio), na formulação desses “postulados”.

O primeiro deles é a “Lei do comportamento discrepante”. Diz, justamente, que, independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o ministro da Fazenda se entrega à austeridade financeira, o Banco do Brasil escancara os cofres. E vice-versa.

Dizia Campos que tais divergências tornavam o combate à inflação uma “aventura torturante e difícil”. Com as devidas adaptações aos tempos e aos temas de hoje (o BC, criado em 1965, substituiu a Superintendência da Moeda e do Crédito – Sumoc, do Banco do Brasil, então também banco emissor), a divergência entre os atuais condutores da economia pode tornar a sustentação do crescimento, mais do que uma aventura torturante,uma inviabilidade.

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