BC paga para ver

José Paulo Kupfer

20 de abril de 2011 | 20h25

Ao elevar a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto porcentual, o Banco Central (BC) reafirma sua aposta em um novo jeito de conduzir a política monetária. E, novamente, contraria uma parte estridente do mercado, que defende uma política monetária mais agressiva, menos gradualista e concentrada nos juros, com o objetivo de fazer a inflação convergir, como no passado recente, para o centro da meta, no menor prazo possível, sem medir as consequências para o crescimento.

Como já ocorrera às vésperas de outras reuniões mais recentes do Comitê de Política Monetária (Copom), os operadores de mesa mostraram-se mais antenados com a lógica do BC do que os economistas/analistas. Conforme vinham apontando os contratos futuros de juros, os operadores esperavam alta de 0,25 ponto porcentual, enquanto a segunda turma, na maioria dos casos, apostava numa mexida de 0,5 ponto.

O principal problema da estratégia convencional de política monetária neste momento é o efeito colateral que um choque nos juros teria sobre a taxa de câmbio. É inegável que a enorme diferença entre os juros internos e externos é um dos fatores que pressionam o real para baixo. Uma Selic mais alta inevitavelmente aprofundaria essa tendência. Bom para a inflação, nada bom para diversas cadeias de produção domésticas.

Os indicadores econômicos, na quadra atual, têm mostrado sinais sem direção definida no Brasil. Parte aponta para a manutenção de uma economia aquecida, parte já indica desaceleração. O cenário ainda incerto, por si só, justificaria atitude mais prudente da autoridade monetária. Mas ainda é uma minoria no mercado que considera aceitável pagar para ver, como está fazendo o BC.

Antes, o Copom subia os juros ao menor sinal de alta dos preços – e muitas vezes pecou por excesso. Hoje, parece preferir “comprar” o risco de errar por falta. E ampliar o uso de outros instrumentos monetários – como os depósitos compulsórios e os apertos de crédito –, na tentativa de não aprofundar ainda mais os efeitos colaterais da alta dos juros nas políticas cambial e fiscal.

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