BC potencializa pressões inflacionárias

José Paulo Kupfer

28 de março de 2008 | 18h56

Um teste de conhecimentos de economia para animar a véspera do fim de semana. Lá vai:

Se você fosse empresário e achasse que, por algum motivo, em poucos meses, a demanda na economia seria freada.

1) Continuaria produzindo a mesma quantidade e vendendo ao mesmo preço;

2) Continuaria produzindo a mesma quantidade ou, se pudesse, aumentava a produção enquanto a demanda estivesse aquecida, e, ao mesmo tempo, aumentava o preço;

3) Reduzia a produção, para evitar acumular estoques futuros, e mantinha ou aumentava os preços;

4) Reduzia a produção e reduzia os preços, para já ajustar a empresa aos novos tempos desaquecidos.

Se a sua resposta for diferente de 1, por favor, continue a ler.

Desde que divulgou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em meados de março, o Banco Central encontra-se em campanha pela elevação dos juros. O diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita, um jovem economista de banco, foi escalado para rebater publicamente os ataques ao BC e tem, com uma desenvoltura incomum para diretores do BC, insistido na idéia da instalação de pressões inflacionárias insuportáveis, por conta de um aquecimento da demanda muito além do desejável para a estabilidade monetária. Sabe-se que, de fato, na diretoria do BC, predomina a convicção de que é melhor aumentar um pouco os juros agora do que ser obrigado a dar uma paulada, um choque de juros, mais à frente.

Na prática, porém, o que o BC tem feito é mobilizar expectativas no mau sentido. Ao anunciar, com antecedência, a disposição de segurar a economia, para evitar a transformação de pressões de demanda em aumento de preços e de inflação, o BC cumpre o triste papel dos fracassados planos de estabilização anteriores ao Plano Real.

Como se recordam os mais antigos, as notícias de que o plano de estabilização estava a caminho produziam a profecia de fazer os preços aumentarem preventivamente, determinando, no momento seguinte, o fracasso do próprio plano. A grande marca diferencial do Real foi, exatamente, ter encontrado um meio de neutralizar os movimentos preventivos de elevação dos preços, por conta das expectativas da aplicação de um plano de estabilização – normalmente baseado em algum tipo de controle administrativo de preços.

A lógica da coisa, embora óbvia, é difícil de aceitar: o BC quer aumentar os juros para cortar a inflação que ele mesmo está, no mínimo, ajudando a potencializar.

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