BC reconhece que exagerou

José Paulo Kupfer

21 de julho de 2010 | 20h30

A elevação da taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto porcentual, para 10,75% ao ano, mostra que o Banco Central (BC) reconhece que pegou pesado demais na formação das expectativas – tanto para a inflação quanto para a própria Selic. Isso é especialmente verdadeiro quando se leva em conta o que a autoridade monetária escreveu no Relatório Trimestral de Inflação, divulgado no fim de junho.

O documento foi tão duro ao traçar o cenário inflacionário que o mercado financeiro reagiu imediatamente ao seu anúncio com altas nas taxas futuras. O que o BC não esperava – mas, sendo o BC, deveria esperar – é que os dados da economia real divulgados ao longo de julho confirmariam que a atividade não estava tão aquecida como o mercado imaginava e que a inflação arrefeceria como arrefeceu.

O Banco Central, vamos deixar bem claro, não erra sempre. Mas erra, como errou, no último trimestre de 2008, quando subiu os juros às vésperas da maior freada registrada na economia brasileira em muitos anos. Agora, voltou a errar. Desta vez, felizmente, reconheceu o erro.

No caso da atividade econômica, o erro do BC e do mercado foi não levar em conta pelo menos dois fatos que operaram com destaque no primeiro trimestre. O primeiro foi a queima de estoques acumulados ao longo dos cerca de dez meses em que a economia, a partir do quarto trimestre de 2008, desceu a ladeira. O segundo, talvez ainda mais importante, foi a antecipação de consumo promovida pelos sucessivos anúncios não cumpridos de retirada dos incentivos fiscais aos setores de veículos e eletroeletrônicos domésticos.

Com relação à inflação, a falha se deu justamente por influência da ideia do superaquecimento, que tem se provado inconsistente. O BC e os analistas que seguem as suas profecias duvidaram do caráter sazonal das maiores pressões inflacionárias do início do ano – tarifas de transportes públicos, gastos com educação etc. – e parecem ter se esquecido do caráter peculiar e, por definição temporário, das altas de preços dos alimentos.

Crentes num descontrole da demanda, turbinada pela evolução do crédito, um fenômeno que contém nele mesmo freios naturais, assistiram, a partir de maio à redução do ritmo de crescimento e ao recuo dos índices de preços. Duas altas fortes e sucessivas dos juros básicos, no entanto, já estavam em curso – o que pode ter atuado sobre as expectativas e propiciado uma freada ainda mais firme.

Não deixa de ser estranho um aumento de juros, ainda que menor do que o esperado há não mais de cinco dias, com o fim de semana no meio, com os índices de preço apontando para deflações. Mas essa alta mais moderada dos juros básicos pode ser aceita diante do quadro econômico desenhado para o futuro próximo. O desemprego deve continuar em queda gradual e a massa salarial pelo menos mantida no nível em que se encontra. Este é um quadro de acomodação do nível de atividades, não de estagnação ou recessão. E tudo indica que a inflação, ainda que moderada, voltará a ser positiva nos próximos meses.

Em resumo, o recuo do BC para uma taxa mais baixa do que a antes indicada passa o sinal de que não pretende mais atrapalhar a trajetória razoavelmente equilibrada de crescimento que pinta no horizonte. Tomara…

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