BC x Fazenda, a hora do espanto (reloaded)

José Paulo Kupfer

25 de novembro de 2009 | 17h44

Brigas entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central não são propriamente uma novidade no Brasil. É tão antiga e tradicional a desavença que inspirou o ex-ministro Roberto Campos – um homem público polêmico, inscrito, merecidamente, entre os maiores economistas que o Brasil já teve – a estabelecer, com a ironia que lhe era característica uma lei inexorável do funcionamento econômico brasileiro.

A primeira das “leis do Kafka” – a “lei do comportamento discrepante” –, que já sumarizava o debate, é dos anos 50. Ela diz o seguinte: “Independentemente dos homens e de suas intenções, sempre que o ministro da Fazenda se entrega à austeridade financeira, o Banco do Brasil escancara os cofres – e vice-versa”.

As dez “leis do Kafka” receberam o nome de “leis do Kafka” em homenagem, como explica o autor, em magnífico texto na revista “Senhor”, de março de 1961, “não ao Franz, mas a um primo remoto”, o economista Alexandre Kafka, durante décadas o representante do Brasil no FMI. A “lei do comportamento discrepante” é de um tempo em que o Banco Central nem existia (o Banco do Brasil acumulava a função), mas as desavenças, sim.

Meio século depois, as trombadas continuam. É de conhecimento público que o ministro Guido Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, não se bicam. Nas últimas semanas, a disputa entre eles escalou vários degraus, a ponto de o presidente Lula sair de seus “ais” para puxar a orelha de ambos.

O que o distinto público não sabia – ou pelo menos não sabia a missa toda – é que, nos períodos mais agudos da crise, no fim de 2008, as desavenças entre BC e Fazenda produziram decisões – e ações – espantosas e de grande risco. Ainda falta muita coisa a ser contada, mas o que já se sabe põe em relevo a falta de sintonia entre os responsáveis pela execução da política econômica do governo.

Por trás do pega-pega estão dois assuntos: a paternidade pela saída do Brasil da crise global e a forma de encarar (e eventualmente, atuar contra) a valorização do real ante o dólar.

Num intervalo de dez dias, o jornal ‘Valor’ publicou duas reportagens que revelam os bastidores de como o governo combateu a crise no País. Na primeira delas, que resultou na demissão do então diretor de Política Monetária, Mário Torós, o herói da história é o Banco Central. Sem a eficiente atuação de Torós e seus colegas, o sistema financeiro brasileiro teria sucumbido à aguda falta de liquidez e aos ataques especulativos desfechados.

Na outra reportagem, traça-se um quadro igualmente tenebroso, mas com uma diferença vital, em relação à anterior: os heróis da história agora são o Banco do Brasil e o Ministério da Fazenda. Segundo o relato, no auge da crise, o Banco Central teria se recusado a socorrer bancos (pequenos, médios e grandes) que sofreram com o estancamento da liquidez.

Dirigentes do BC alegaram, na época, de acordo com a reportagem, que não dispunha de instrumentos jurídicos para oferecer o socorro. Em bom português, a fonte não identificada ouvida pelo jornal disse que o alto escalão do BC tirou o corpo fora numa hora crítica.

Com isso, o papel de emprestador de última instância coube ao BB, que socorreu os bancos problemáticos com empréstimos bilionários. Num lance incrível, com o BB atuando como BC, por voltamos quase meio século na história econômica brasileira.

O resumo da ópera (ou do filme B de terror) é que, na ânsia de garantir para suas hostes o troféu de salvador da pátria, BC e Fazenda expuseram a economia a riscos não só altíssimos como desnecessários. Por pouco não estariam disputando o indesejado galardão de quem teria potencializado a crise global no País.

O que assusta e preocupa é que as disputas continuam.

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