Boas ideias para fugir do problema cambial

José Paulo Kupfer

22 de setembro de 2010 | 11h47

Não sei se é só no Brasil, mas no Brasil, quando não se quer enfrentar um problema, cria-se uma comissão para estudar o assunto e apresentar sugestões em prazo sempre longo demais. No debate dos problemas econômicos – e também nos sociais –, analogamente, quando não se quer enfrentá-los, sugere-se unicamente soluções de longo prazo.

É assim, por exemplo, no caso das cotas para determinados grupos no acesso às universidades públicas. Quem não quer enfrentar o problema da desigualdade na corrida pelas vagas, vem logo com a ideia de que, em lugar de políticas afirmativas, é preciso melhorar o ensino fundamental público.

Melhorar o ensino fundamental é uma necessidade evidente e, se tudo correr bem e for bem feito, no futuro, tornará a ideia das cotas desnecessária. Beleza. Mas o que uma coisa impede a outra? Seria o caso de deixar o fogo devastar a floresta enquanto medidas estruturais para evitar as queimadas são estudadas e implementadas ao longo do tempo?

Na presença de um problema de hoje, é preciso, ao mesmo tempo em que se inicia ou se avança na solução mais estrutural, cujos resultados só aparecerão amanhã, encontrar soluções agora. E, por acaso, as saídas de hoje e de amanhã seriam excludentes?

Este é exatamente o quadro do debate sobre o problema cambial do momento. Descartar saídas de momento, não estruturais, mas com possibilidade de conter os impactos negativos produzidos hoje, em nome de soluções mais estruturais, com efetividade para amanhã, é, no fim das contas, não querer enfrentar o problema.

Não pode haver quem discorde que uma maior competitividade da produção nacional e, em conseqüência, das exportações, é um caminho não só desejável como indispensável para enfrentar, mais estruturalmente, os problemas cambiais provocados pela excessiva valorização do real. Mas do que estamos falando nesse caso?

Falamos de uma ação coordenada de política econômica de difícil, ainda que não impossível, implementação para reduzir o chamado “custo Brasil”. Nada que se possa pretender aplicar ainda hoje.

Desse pacote mais estrutural faz parte uma limpeza em regra nas burocracias e entraves administrativos à relação de negócios. Isso, em teoria, é até mais fácil e rápido do que o ponto central do projeto: uma reforma tributária simplificadora, que desonere investimentos, folha de salários e exportações. O que não se fará, eficientemente, sem uma revisão dos gastos públicos, com redução da carga tributária.

 Também deveria fazer parte do pacote uma revisão em pilares da política monetária, caso do sistema de metas de inflação. Não se será mais competitivo sem reduzir a taxa de juros e os spreads bancários. Idem sem abrir espaço para que o setor privado ofereça crédito a prazo longo.

Não é brincadeira a tarefa e é evidente que concluí-la com um mínimo de êxito levará algum tempo. Mas, e enquanto isso? Não há mesmo nada a fazer?

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