Boi no churrasco

José Paulo Kupfer

29 de junho de 2011 | 15h23

Se instado a se pronunciar, o Conselheiro Acácio, com a devida solenidade, declararia que, quando duas empresas gigantes do mesmo ramo e com atuação nas mesmas praças se juntam, o que resulta é uma concentração de mercado. Se essa concentração beneficiará os consumidores e demais envolvidos são outros quinhentos. Há exceções, mas a regra é que não beneficiem.

No caso do anunciado projeto de fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour, saber a quem o negócio beneficia não será missão simples. Mas, numa primeira visada e raciocinando por exclusão, dá para ter uma ideia.

Os funcionários são, em boa parte das grande fusões, as primeiras vítimas. Apesar das juras em contrário, depois que o barulho em torno da notícia se dissolve, as lojas sobrepostas – e, no caso, são muitas – são fechadas e empregados remanejados ou dispensados. Pão Açúcar e Carrefour empregam mais de 150 mil pessoas.

Fornecedores das duas redes que pretendem se juntar também não estariam entre os beneficiados. O poder de fogo de cada empresa em separado já é grande o suficiente para tornar um tanto desequilibrado o jogo das suas compras no atacado.

O Casino, sócio francês do Pão de Açúcar, concorrente do Carrefour na França, é outro que não entra na lista dos que saem ganhando. Independentemente do cala-boca em dinheiro que possa acabar levando na operação, sua participação na nova empresa será reduzida e a opção de compra futura do controle do Pão de Açúcar, parte do contrato que mantém com o grupo brasileiro, vai por água abaixo. É compreensível que sua direção esteja esperneando.

Do sócio estatal do projeto de fusão, o BNDESpar, braço de participações em empresas do BNDES, que entraria com o grosso do dinheiro, se pode dizer que, eventualmente, terá ganhos financeiros futuros. Mas, para seu mantenedor, o contribuinte brasileiro, é difícil que haja alguma vantagem. Mantido por fundos públicos, formados com dinheiro do contribuinte brasileiro, o BNDESpar não deveria decidir sua participação apenas com base nos cálculos de retorno financeiro. No mínimo, teria de medir os custos alternativos produzidos pelo desvio de recursos de outros projetos mais estratégicos para o País.

Por meio do BNDES e do BNDESpar, nos últimos anos, aportando dinheiro público, o governo tem viabilizado um número crescente de fusões. Algumas, como a absorção da Aracruz pela Votorantim, na área de papel e celulose, e a da Sadia pela Perdigão, no setor de alimentos industrializados, foram autênticas operações de socorro. No caso desta última, o governo apoiou um negócio barrado pelo Cade. Pode repetir a façanha nessa operação Pão de Açúcar-Carrefour.

Em relação aos consumidores, a análise fica mais complicada. O consultor Cláudio Galeazzi estima que Pão de Açúcar e Carrefour juntos dominarão 27% do mercado varejista formal e 16% do total, aí incluídas as vendinhas informais. Mas esta é uma estimativa muito interessada em subestimar a real concentração que adviria da fusão, pela simples razão de que seu autor é sócio do banco de investimento BTG Pactual, mentor do negócio e sócio relevante da empresa resultante.

Há outras estimativas que apontam para o domínio de algo como um terço do mercado varejista, sem considerar a linha dura. De todo modo, a análise técnica, provavelmente, baixará ao nível da concentração por região ou mesmo sub-regiões.

Restam, então, três ganhadores líquidos e certos. Pão de Açúcar, Carrefour e BTG Pactual, o único ente privado que entraria com alguma moeda sonante no negócio. Não é à toa que as ações dos dois varejistas voaram ontem nas bolsas de São Paulo e Paris.

Chama a atenção que, sem o dinheiro do BNDES a operação não fecha. No churrasco que está sendo preparado, um entra com carvão, outro com sal, enquanto o banco público, mais uma vez, entra como boi.

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