Bolsa de apostas

José Paulo Kupfer

19 de abril de 2016 | 14h24

Agitação e volatilidade estão no centro dos pregões da bolsa de apostas dos ministeriáveis do não empossado, mas já em montagem governo do vice-presidente Michel Temer. Como é comum nesse mercado, os nomes entram, saem, voltam e somem em velocidade acelerada, ao sabor das plantações das mais variadas origens.

Nessas primeiras sessões da bolsa de apostas, as “blue chips” são aqueles personagens mais ou menos óbvios. Representam balões de ensaio, como certas ações na Bolsa, puxadas com compras maciças para cima com o objetivo de atrair incautos e “realizar lucros” nas vendas posteriores.

Na economia, diante das dificuldades do ajuste, está ocorrendo uma certa correria para fora entre os ministeriáveis. Temer, aparentemente, gostaria de entregar o osso indigesto ao PSDB. Seria uma forma esperta de trazer o sócio do impeachment para dentro do governo, dividindo, como num casamento, alegrias e tristezas, ou, quando se fala de governar, sucessos e fracassos — de preferência deixando os fracassos para o parceiro.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, o ministro de Aécio Neves e do PSDB, era o nome natural para essa operação. Mas Aécio e o PSDB perceberam a jogada e dão sinais de hesitar em correr tantos riscos. Armínio, segundo vazou de um jantar nesta segunda-feira com Aécio e Temer, prefere “ajudar de fora”… Bem fácil de entender.  A fila então andou, com Henrique Meirelles, o fenômeno político que agrada tanto a Lula quanto a Temer, e Marcos Lisboa, um professor de economia com militância midiática, na dianteira, mas com Gustavo Franco e Murilo Portugal. Anuncia-se que Temer jantará com cada um deles nesta semana e ainda com o ex-ministro Delfim Netto, ex-conselheiro de Dilma e já há algum tempo de Temer, bem acomodado nessa posição politicamente relevante e operacionalmente lateral.

Alguns desses, depois dos jantares com Temer, vão apenas adicionar calorias ao seu estoque corporal porque dificilmente aceitarão a missão desafiadora. É o caso mais provável de Marcos Lisboa, acadêmico com forte presença no debate econômico na mídia e formulador de programas de ajuste fiscal. A descrença em que possa aceitar a Fazenda vem das críticas a aspectos do “Ponte para o futuro”, o projeto econômico de referência de Temer, que ele tem feito mais recentemente.

Não está na agenda dos jantares de Temer desta semana, mas o senador José Serra, cotado para algum ministério, sempre pode terminar na ponta dessa corrida pela Fazenda, aproveitando algum vácuo. O fato de o PSDB não querer pegar na unha o touro da correção da economia não é exatamente problema para uma indicação de Serra, um tucano que sempre tentou correr em faixa própria.

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