Caça ao feijão de fora não é novidade e já foi mais difícil

José Paulo Kupfer

22 Junho 2016 | 21h16

A corrida do governo em busca de feijão mundo a fora, para enfrentar a atual quebra da produção nacional e a consequente explosão dos preços, primeiro no atacado e depois no varejo, não é uma novidade desse atribulado 2016. Muito antes, nos já longíquos anos 70, os governos de então também recorriam às pressas aos mercados produtores internacionais, na tentativa de aumentar a insuficiente oferta doméstica do produto e acalmar a alta de seus preços.

Na época, porém, as dificuldades eram maiores. Era preciso encontrar lá fora produtores com estoques exportáveis de um tipo específico de feijão — o feijão preto. Esse que se usa nas feijoadas de quartas e sábados em diversos pontos do País é o feijão nosso de cada dia em poucos lugares. Um deles é o Rio de Janeiro.

O que tem uma coisa a ver com a outra? Tem tudo. É que, naquele tempo, a inflação “oficial” era medido pelo Índice Geral de Preços IGP), calculado pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro. É o mesmo IGP de hoje, em que três índices  — o Índice de Preços no Atacado (IPA), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) —,  são combinados, numa média aritmética ponderada, na qual o IPA entra com 60%, o IPC com 30% e o INCC com 10%. Mas com abragência geográfica muito menor.

O IGP é divulgado desde 1947 e sua abrangência mudou muito ao longo dessas quase sete décadas. O IPC, por exemplo, começou com o nome de Índice de Custo de Vida (ICV) e era apurado apenas na cidade do Rio de Janeiro até 1990, quando os preços coletados em São Paulo passaram a compor o índice. A partir de 2005 e até hoje, o IPC incorpora preços vigentes em sete cidades — as capitais da regiões metropolitanas do Rio, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife e Salvador, mais Brasília.

O hoje conselheiro informal do presidente em exercício, Michel Temer, economista Antonio Delfim Netto, era o protagonista da caça ao feijão que hoje voltou a ser feita. Com a diferença de que não era qualquer feijão, um carioquinha qualquer — apesar do nome, esse é menos consumido na terra dos cariocas do que no resto do País —, mas o preto e só o preto porque era apenas esse o tipo que entrava no cálculo da inflação.

Então poderoso ministro da Fazenda do governo militar, Delfim, “czar da economia”, como se dizia, vivia, de tempos em tempos, a atribulada aventura de encontrar feijão preto em algum fornecedor externo. Chile e México eram alvos preferenciais, mas até em países asiáticos os enviados do governo iam buscar o precioso grão, para tentar segurar o touro da inflação na unha.