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Carta de (boas?) intenções

José Paulo Kupfer

17 de novembro de 2008 | 17h53

É preciso reconhecer que a diplomacia dos países desenvolvidos e dos emergentes mais importantes deu um show, em Washington, no fim de semana. A velha especialidade dos diplomatas – falar muito e dizer pouco – foi o destaque da reunião da cúpula do G-20.

Apesar de formar um texto com quase quatro mil palavras e meia centena de medidas a serem adotadas a curto e médio prazos, o documento divulgado no encerramento do encontro não passa de uma carta de intenções. A profusão de metas – e de adjetivos – denuncia o caráter preliminar e precário do acordo alcançado.

Seria mesmo demais pedir algo muito além disso. Não houve tempo hábil nem para rascunhar, quanto mais refinar, um verdadeiro acordo de reformulação da governança financeira e econômica global. Em todo caso, como diriam os otimistas, o resultado da reunião da cúpula do G-20 foi melhor do que a expectativa inicial – que era de puro e simples esvaziamento, principalmente por se realizar na transição de governo, nos Estados Unidos.

Mas, no fim das contas, o resultado foi melhor para quem? A sensação que a declaração de Washington transmite é, com licença da expressão crua, a de um prato feito, montado na cozinha dos países ricos.  O cheiro é que a coisa veio pronta do forno americano, temperado com especiarias européias e, em especial, inglesas.

Drenado das tautologias, sobra, naturalmente, um discurso que precisa passar pelo teste da realidade. Fiquemos com o item 13 da declaração, que recomenda não serem adotadas medidas protecionistas por 12 meses. A falação anti-protecionista, num período de contração dos mercados domésticos, diante dos exemplos históricos, tem tudo para não passar disso mesmo – falação.

Começando pela reação de Barack Obama. A reação do presidente americano eleito não é nada animadora. Como defender a indústria automobilística americana sem protegê-la dos concorrentes estrangeiros? E a Europa, com os franceses à frente, vão conseguir se livrar, assim num piscar de olhos, de sua tradição protecionista?
 
Um bom teste virá com o relançamento da Rodada Doha, da Organização Mundial de Comércio, também decidida no encontro. A ver se, até o fim do ano, como determinado pelo G20, será possível concluir o acordo que naufragou no ano passado. Difícil escapar da impressão de que será surpreendente se der certo. 

A verdade é que as determinações dos líderes do G20 a seus ministros de finanças e aos organismos multilaterais, com vistas à aplicação das medidas anunciadas, a partir de abril de 2009, por enquanto, deixam mais perguntas do que respostas. E, no caso dos emergentes, as dúvidas são ainda maiores.

Decidiu-se, por exemplo, recomendar ao FMI que torne mais ativa, mais ágil e mais flexível a ajuda a países emergentes que enfrentem dificuldades de liquidez e travas no crédito. Beleza. De fato, como mostrou o economista Luiz Gonzaga Beluzzo, num pequeno, mas ilustrativo artigo, publicado ontem, na “Folha” (ver aqui), as economias desses países encontrarão maiores dificuldades para adotar políticas anticíclicas e mitigar os efeitos da crise nascida e alimentada acima do Equador. E uma grana poderia mesmo ajudar.

Mas, perguntar não ofende: a ajuda do FMI viria com ou sem condicionantes de política econômica?

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