Caso Embraer: Lula é leão num dia e gato num outro

José Paulo Kupfer

26 de fevereiro de 2009 | 19h24

A Embraer não é a Petrobras. Mas, como a gigante brasileira de petróleo e gás, que nasceu da decisão política dos brasileiros, a Embraer tem história e uma história que não é qualquer. A hoje terceira maior empresa do seu setor no mundo, também nasceu de uma decisão política – a de dotar o Brasil de uma indústria aeronáutica de porte.

A origem da Embraer remonta a meados dos anos 40, quando ganhou corpo o projeto de criação do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), no qual fazia parte destaca uma escola de alto nível, para a formação de engenheiros, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Quando foi criada, no governo militar, em 1969, a Empresa Brasileira de Aeronáutica contou com o indispensável suporte de conhecimento técnico-científico acumulado e a excelência do CTA e do ITA. Contou também com recursos públicos e, mais do que isso, com poupanças populares, já que era possível destinar parcela do imposto de renda (leia-se subsídio) ao investimento em ações da empresa. 

Privatizada em 1994, a Embraer, maior exportadora brasileira de alta tecnologia, é um exemplo magnífico do poder multiplicador de políticas industriais bem desenhadas e bem aplicadas. Sob controle privado, empresa alçou altos vôos, mas nunca perdeu a ligação com os governos. Direta e indiretamente. Lembram-se do empenho do governo na guerra comercial com a concorrente canadense Bombardier? Quem não lembra, não perderá em saber que quase um quinto do capital da Embraer vem da Previ e do BNDESPar, sem falar na “golden share” do governo, nas decisões de Segurança Nacional.

Por tudo isso, a atitude do presidente Lula no episódio da demissão, nua e crua, de 20% da força de trabalho da Embraer é, para dizer o mínimo, lamentável. A versão não desmentida de que ele sabia das demissões antes do anúncio público, torna escandalosa sua teatral “indignação” com o fato. Pior: com todo o respeito, ele rugiu como leão quando as demissões vieram a público, mas miou como gato, ontem, ao fim da reunião com a empresa.  

Espantosa a falta de alguma pressão sobre a Embraer, que demitiu mais de 4 mil empregados sem negociação com os sindicatos de trabalhadores. Chocante a ausência completa de alternativas para pelo menos mitigar os efeitos, econômicos e sociais, para os demitidos, e de organização da produção, para a empresa, do corte bruto.

De uma reunião com a direção da Embraer e uma penca de ministros de alto coturno (Dilma, Mantega, Miguel Jorge e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho) Lula não saiu com nada melhor do que um pedido para que a empresa conceda aos desempregados qualquer coisa além da extensão da assistência médica por um ano. Nem uma encomendinha de Tucanos para a FAB não deu para acenar? Nenhuma perspectiva que seja, em realação aos muitos projetos atrasados do governo no campo da aviação militar?

Uma das principais multinacionais brasileiras, a Embraer, sem dúvida, está sofrendo com o corte de encomendas e o colapso da demanda. A indústria aeronáutica, onde a empresa opera, é uma das mais atingidas pela crise. Demissões, portanto, podem ser inevitáveis. Mas há jeitos e jeitos de enfrentar problemas como esse.

Uma empresa com a história da Embraer e, mais do que isso, com o capital tecnológico e humano que acumula, não pode soltar o facão sem medir muito bem conseqüências políticas, sociais e produtivas de uma decisão que, pode não ser verdade, mas deu a entender, só visou preservar o  interesse imediato dos acionistas.

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