Choverá dinheiro onde precisa, com o "grau de investimento"?

José Paulo Kupfer

30 de abril de 2008 | 17h43

A Standard&Poors, a maior e, tanto quanto possível nos dias de hoje, prestigiada agência de classificação de riscos, acaba de elevar o Brasil a “grau de investimento”. Tem gente estourando champanhe e ligando para a mãe, com voz embargada, contando a boa nova, que chega depois de uma longa e sofrida espera.

Isso significa que, finalmente, chegamos ao panteão em que já se encontram potências econômicas como Botsuana, Barbados, Peru, Antilhas Holandesas, Chile… Teoricamente, são “grau de investimento” aqueles países cuja economia exibe fundamentos (epa!) suficientemente sólidos para merecer a confiança dos investidores, principalmente no quesito “baixo risco de calote” (não é por nada não, mas a Rússia, conhecida caloteira, também é grau de investimento, como a Tailândia, que enfrenta problemas com recentes ondas de fome de parte de sua população).

Na verdade, o grau de investimento fornece o álibi que administradores de recursos financeiros precisam para aplicar, no mercado financeiro global, a poupança das velhinhas do Kentucky e o dinheiro dos cotistas dos fundos de pensão. Quem realmente sabe das coisas, não precisa desse certificado emitido por firmas cuja reputação, sobretudo depois da crise dos subprimes, está mais suja do que pau de galinheiro. Muito antes do “investment grade” o bilionário investidor americano Warren Buffett já ganhava rios de dinheiro apostando no real verde-e-amarelo.

Também as empresas brasileiras que, eventualmente, ganhariam com o “grau de investimento”, já têm papéis negociados em bolsas do exterior, recebem investimentos e obtém financiamentos a custos e facilidades de grau de investimento. Essa, então, é uma vantagem que já chega meio tarde. Mesmo Lula, que, obviamente, vai tirar vantagem política do “grau de investimento”, não precisa dele. Seus recentes índices de aprovação recordes falam por eles mesmos.

Interessante que o “grau de investimento” veio quando a inflação, segundo o Banco Central, ameaça explodir e exige, na argumentação de seus diretores, aumento dos juros básicos – e numa progressão que ainda não teria se encerrado. Mais: veio na hora em que tem gente arrancando os cabelos com a evolução, acima da inflação e do crescimento do PIB, dos genericamente chamados gastos públicos.

Resumo: a S&P esqueceu tudo o que já falou e fechou os olhos para alguns de seus principais parâmetros de classificação de risco ao elevar a nota do Brasil. Cadê as reformas tributária, trabalhista e previdenciária? E a relação dívida pública líquida/PIB, não tinha de ser de 30%, mas vale “grau de investimento” mesmo acima de 40%? Até parece que é o Brasil que está dando algum aval à combalida S&P e suas congêneres.

Não é que nada vá mudar depois da chegado do almejado “grau de investimento”. No dia do anúncio da concessão de “grau de investimento” ao Brasil pela S&P, a Bolsa explodiu e o dólar derreteu. A onda de 2007, que já antecipava o inevitável destino “grau de investimento” do Brasil, pode embicar uma nova etapa positiva, mesmo em meio à crise financeira global. E, afinal, é obviamente melhor ser “investment grade” (em inglês, pensando bem, fica mais chique…) do que ser um BB menos qualquer.

Se vai chover dinheiro, seria uma pena se a chuva só molhasse os bolsos do setor financeiro. É preciso que chova na horta da produção, do emprego e da melhoria das condições de vida dos brasileiros em geral – e dos mais necessitados, em especial.

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