Contagem regressiva

José Paulo Kupfer

25 de dezembro de 2012 | 12h19

Todas as projeções mais recentes, do Relatório Trimestral de Inflação, do Banco Central, ao último boletim Focus, com as estimativas do mercado, apontam um crescimento do PIB, em 2012, não superior a 1%. Ao mesmo tempo, a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), de responsabilidade do IBGE, captou, em novembro, uma nova redução na taxa de desemprego, agora de 4,9% (5,3% depois de ajustes sazonais), a segunda menor desde que a série atual começou a ser divulgada, há dez anos.

Ao enigma do baixo crescimento com alta taxa de ocupação, a característica mais marcante da economia brasileira em 2012, deve-se acrescentar outra situação incomum: a da inflação acesa em ambiente de atividade, na média, fria. Mesmo com expansão econômica fraca, as estimativas para a evolução do IPCA, neste ano já prestes a se encerrar, ainda avançam e apontam para uma desconfortável alta nas vizinhanças de 6% – bem mais perto do teto do que do centro da meta.

Fossem apenas essas as contradições de 2012, já formariam um bom quebra-cabeça. Mas há ainda, neste ano, outros pontos aparentemente fora do padrão. Um dos mais interessantes mostra que, apesar do crescimento medíocre e da inflação alta, ocorreu aceleração tanto na queda da desigualdade quanto no ritmo de crescimento da renda das famílias.

É o que mostra um estudo do Ipea, divulgado na semana passada e conduzido por seu presidente, Marcelo Côrtes Neri, um dos mais respeitados especialistas brasileiros em políticas de renda. Segundo a pesquisa, a renda individual média da população de 15 a 60 anos subiu 4,89% de 2011 para 2012, contra uma taxa média de 4,35% entre 2003 e 2011. Já a desigualdade de renda domiciliar per capita, medida pela PME, caiu, em 2012, a uma velocidade 40,5% maior do que a observada em 2003 a 2011, de acordo com a PNAD. Detalhe: as rendas que mais cresceram foram as dos mais pobres.

O estudo do Ipea também constatou, depois da aplicação, em outubro, de perguntas padronizadas de questionários internacionais em 3,8 mil domicílios, que o cenário econômico de fraco crescimento e incertezas futuras ainda não foi suficiente para afetar o grau de satisfação pessoal da população. Em uma escala de 0 a 10, os brasileiros atribuem, em média, nota 7,1 para suas vidas, o que colocaria o Brasil na décima sexta posição entre os 147 países pesquisados no Gallup World Poll. Com todos os percalços, 2012 mostra um avanço em relação à nota média brasileira – de 6,8 –, captada na pesquisa do Gallup em 2010.

Chama a atenção o fato de que é no Nordeste, a região mais pobre, que se encontra o mais alto grau médio de satisfação, com nota 7,38. Como destaca Neri, no estudo do Ipea, se o Nordeste fosse um país, seu nível de felicidade ocuparia o nono lugar no ranking global, situando-se entre a Finlândia e a Bélgica. A conclusão do presidente do Ipea é que a maioria dos atributos sociais desejáveis não só foi mantida em 2012, mas também ampliada.

Os enigmas e paradoxos de 2012 são uma indicação razoavelmente clara de uma economia desequilibrada e em fase de transição. Um retrato do momento mostra, de um lado, que os efeitos positivos do crescimento anterior mais forte ainda se fazem sentir, assim como, de outro, ainda não se fazem sentir os estímulos já adotados na direção de uma expansão da economia.

Se essa avaliação estiver correta, não faz nenhum sentido contrapor os ganhos sociais de 2012 ao “pibinho” do ano – nem desqualificar os avanços sociais por conta do baixo crescimento econômico. Trata-se, afinal, de um momento específico em que o tempo corre contra a sustentação desse quadro de paradoxos. Se a economia não reagir com rapidez, voltando a crescer com mais vigor, não haverá base para manter os ganhos sociais obtidos nos últimos anos.

Sem expansão da oferta, com aumento do investimento privado, e pelo menos sinalizações firmes de alívio nos gargalos da infraestrutura, com a efetivação de investimentos públicos e em parceria com o setor empresarial, a inflação imporá limites ao emprego e à expansão da renda. Ainda sem uma definição nítida, estamos, em resumo, em contagem regressiva na direção de um novo período de baixo dinamismo social e econômico ou de um crescimento suficiente para preservar e ampliar os ganhos sociais já alcançados. A resposta virá em 2013.

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Neste dia de Natal, votos de que o espírito da data ilumine a todos.

 

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