Convergência sujeita a revisões

José Paulo Kupfer

24 Dezembro 2014 | 17h28

Sai “parcimônia” e entra “fazer o que for necessário” para levar a inflação ao centro da meta, em 2016. Do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), referente ao quarto trimestre de 2014, esta é a principal mensagem extraída pelos analistas de mercado. Colocadas no tradutor de “coponês” – o idioma peculiar do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pelo relatório -, as projeções do documento e as expressões enigmáticas nele contidas deram a entender que a taxa básica de juros deve aumentar 0,5 ponto porcentual, em janeiro e 0,25, em março, mantendo-se em 12,5% até o fim do ano.

Estaria tudo ok e haveria amplo consenso entre analistas quanto à trajetória dos juros básicos se o documento não tivesse mencionado que a política monetária deverá permanecer “especialmente vigilante”. Essa vigilância especial costuma ser traduzida como indicação de que haverá maior rigor na perseguição do centro da meta. Daí se conclui que a marca de 12,5% ao ano, em 2015, representa uma convergência de opiniões sujeita a revisão no futuro próximo.

A desconfiança de que isso pode acabar acontecendo nasceu de discrepâncias entre o cenário de referência, utilizado pelo BC, e o de mercado, que se vale das premissas registradas no Boletim Focus. Apesar de trabalhar com uma taxa de câmbio de R$ 2,55 por dólar, juros básicos de 11,75% ao ano e alta de 6,2% nos preços administrados, todos abaixo do estimado pelo mercado – dólar a R$ 2,68, juros a 13,5% e preços administrados corrigidos em 7,6% -, o BC projeta, para 2015, inflação alta, de 6,1%, perto do teto da meta, enquanto o mercado já prevê 6,54%, acima do teto. Dólar mais valorizado, como o previsto pelo mercado, e correção mais forte de preços administrados pressionam a inflação. E podem exigir doses extras de juros para levá-la, como prometido, ao centro da meta em 2016.